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Espetáculo #Passinho leva a dança urbana da periferia para os palcos

Coreógrafo Rodrigo Vieira conta como vem divulgando essa expressão artística para o público dos grandes espetáculos

Fernanda Vallois

Os nove dançarinos são de diferentes comunidades cariocas, como Cidade de Deus, Manguinhos e Queimados

Em uma mistura de passos de funk, hip hop, break, kuduro, popping, samba, forró, frevo e ritmos do recôncavo baiano, o passinho nasceu nos bailes funks da periferia da cidade do Rio de Janeiro há mais de uma década. Sabará, cruzada, embolada, passada e caída são alguns dos passos dessa dança genuinamente brasileira, que já emplacou diferentes modalidades. O passinho do menor da favela e o passinho do romano são as mais conhecidas.

Além do show livre e irreverente feito por crianças e jovens nas festas, a Batalha do Passinho é também uma forma de apresentação muito comum da dança. A disputa desafia os dançarinos, que se apresentam individualmente para mostrar quem faz melhor e com mais manha cada um dos movimentos. 

Antes limitada às comunidades cariocas ou a vídeos na internet, essa dança urbana energética vem ganhando maturidade artística contagiando novos palcos e um novo público.

O espetáculo #Passinho (lê-se hashtag passinho) surgiu para confirmar o êxito. Trata-se de um projeto que acontece há dois anos, com nove dançarinos de diferentes comunidades da cidade do Rio de Janeiro: CL Fabulloso, DG Fabulloso, GN Fabulloso, Iguinho Imperador, Jackson Fantástico, Leony Fabulloso, Michel Quebradeira Pura, Nego e Sheick. Com idades entre 18 a 23 anos, os integrantes vêm de diferentes partes capital carioca, entre elas Cidade de Deus, Manguinhos e Queimados.

O projeto surgiu de um convite feito aos renomados coreógrafos de dança contemporânea Rodrigo Vieira e Lavínia Bizzoto para coreografar o primeiro trabalho com residência artística no Complexo do Alemão em 2014. A proposta era montar números com os passos dos dançarinos. Estes já eram conhecidos por Vieira e Bizzoto, pois eles já haviam trabalhado os garotos em um espetáculo anterior, o "Na Batalha". Os movimentos que antes eram feitos na liberdade da rua foram adaptados para o espaço limitado do palco, respeitando as exigências de uma criação artística profissional.

O processo criativo durou três meses em 2015 na comunidade de Manguinhos e contou com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. O desenvolvimento do projeto dispôs de uma experiência de imersão artística no espaço LaFigueira, onde Vieira atua como produtor e realizador de eventos relacionado ao bem estar e ao desenvolvimento humano. Os coreógrafos também receberam a missão de formular um enredo com letras e trilhas sonoras baseadas na história de vida dos garotos.

Vieira conta que também veio de uma família simples e por essa razão, tem grande empatia com os dançarinos. Ele busca inspiração para as coreografias em visitas às comunidades e em sua relação com os meninos que, segundo ele, é sempre muito intensa. “Eles elevam minha energia criativa. É como se nós celebrássemos a vida ao ritmo do funk”, afirma satisfeito.

Michel Quebradeira Pura, um dos dançarinos, escreveu em seu perfil do Facebook um texto sobre a importância de sua origem. “O que me orgulha mais é que nós, favelados, criamos a primeira dança urbana brasileira. Uma dança que o mundo todo está conhecendo e que tem muito pela frente”, conta orgulhoso. Ele também lembra que a dança já tirou vários garotos de situações de vulnerabilidade. “Algo que para mim era uma diversão anos atrás, hoje virou profissional”, conta realizado sobre o #Passinho, que já tem até um fã clube formado.

Vieira também se mostra satisfeito com os resultados das últimas temporadas do espetáculo em setembro e dezembro de 2015 na cidade de São Paulo. “Ver o público vibrar e se emocionar com um espetáculo que traz a alegria e a esperança da manifestação cultural brasileira de uma dança urbana, só reforça minha missão e propósito de que a arte é também cultura da paz”, reflete o coreógrafo que já teve o seu trabalho apresentado pelos meninos no Theatro Municipal e no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, e até no Lincoln Center, em Nova York, nos Estados Unidos.

Por enquanto, o #Passinho sobrevive e atua de forma colaborativa, através de parceiros e convites de teatros que dispõem de orçamento para viabilizar os espetáculos. Os coreógrafos viajam para o Rio de Janeiro e criam as coreografias dentro das próprias comunidades. “Estamos numa fase de buscar parcerias, patrocinadores e apoio em editais para a manutenção do projeto. Esperamos que com o tempo possamos dispor de manutenção mensal e diária aos meninos, como forma de apoiar e valorizar o trabalho destes dançarinos de funk. Como acontece com bailarinos com formação clássica e contemporânea, que atuam em companhias de dança", aspira o coreógrafo.

Para concretizar as várias propostas recebidas em 2015, é necessário profissionalizar os dançarinos. O documento de registro técnico (DRT) de dança é obrigatório no Brasil e fundamental para regularizar a situação fiscal do registro de microempreendedor individual (MEI) de cada um.

Como o grupo não tem fonte de recursos próprios, foi criado um financiamento coletivo no site Benfeitoria para que o público pudesse colaborar com o custeio das despesas necessárias de profissionalização e trâmites administrativos. A campanha foi um sucesso e a meta foi atingida.

Para o futuro, Vieira planeja criar mais três espetáculos de dança e trabalhos audiovisuais até 2017 que envolvam ainda mais jovens. “Quero que o projeto sirva a sociedade por meio de oficinas, residências artísticas e parcerias. Dessa forma, podemos contribuir para a formação profissional e revelação do talento desses jovens para o mundo”.

Portal NAMU conversou com o coreógrafo sobre a dança como forma de união das manifestações culturais populares e eruditas e em relação a repercussão do #Passinho fora da periferia.

Portal NAMU: Você acha que as manifestações de cultura populares brasileiras ainda sofrem preconceito e são subjugadas em relação às modalidades culturais de origem europeia ou de elite?
Rodrigo Vieira: Sim. De fato, sinto que existe uma limitação para as nossas culturas populares se expressarem. 

Como as coreografias são elaboradas? Como ocorre a mistura entre os passos livres dos dançarinos e a técnica da dança de coreógrafos contemporâneos?
A elaboração se dá a partir do próprio material coreográfico que o passinho apresenta: frevo, break, samba etc. Como a dança é recheada de ritmo e outras influências urbanas, criamos cenas e sequências de movimentos para a narrativa do espetáculo que surgem da nossa vivência dentro das comunidades e das imersões artísticas. É como se contássemos nossa história através de movimentos e de música.

Qual era o perfil do público que foi assistir aos espetáculos?
O público que veio ao teatro em São Paulo ver pela primeira vez o #Passinho, por exemplo, vibrou e se emocionou. O espetáculo foi de todos: artistas, periferia e público da cidade. O #Passinho contagia a qualquer um.

 

Além dos espetáculos, vocês promovem oficinas e residências artísticas, certo? Em que locais essas ações acontecem? Como os jovens podem participar?
As oficinas e imersões artísticas ajudam no desenvolvimento e formação dos jovens. Elas também promovem o contato com outras linguagens artísticas e novas formas de criar e qualificar o trabalho. Escolhemos sempre mergulhar nas comunidades e centros de formação, como o LaFigueira em São Paulo. Todos podem participar e contribuir nessas ações. Para participar basta nos procurar.

A música, o figurino, a luz, o som e a produção também são funções de meninos das comunidades cariocas?
Não. Para manter a qualidade e as exigências técnicas, contamos com profissionais de cada área. Desta forma, os meninos conseguem ter um olhar técnico sobre a produção de um espetáculo.

Você acredita que o passinho é um fenômeno social que reflete a realidade das periferias brasileiras?
Apesar de refletir a complexidade das relações sociais e dos processos de produção cultural do país, o passinho não pode ser visto apenas como fenômeno social. Trata-se de uma expressão artística feita por meninos e meninas que vivem nas periferias. 

Como você vê oportunidades na arte em relação à mudança na sociedade?
Vejo a arte como instrumento de cultura pela paz. Exatamente o que a nossa sociedade precisa.

Fotos 1 e 2: David Santos Jr. 
Fotos 5,6 e 7: Debora Costa e Silva 
Fotos 3 e 4: Fernanda Vallois


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