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Ernst Götsch e a agrofloresta: como produzir com a lógica da abundância

Experiências bem-sucedidas demonstram a eficácia do método que une produção de alimentos e preservação do meio ambiente

Arquivo Pessoal

"Além de restaurar solos, a agrofloresta restaura o otimismo, pois aponta um caminho", afirmam Dayana Andrade (meio) e Felipe Pasini (à dir.) que criaram um projeto para registrar o trabalho de Ernst Götsch (à esq.)

Em tempos de mudanças climáticas, é possível acreditar que já exista um método capaz de promover a abundância dos recursos naturais? Segundo o agricultor suíço que vive no Brasil há 30 anos, Ernst Götsch, não se trata de acreditar, é possível provar a eficácia da agricultura sintrópica ou agrofloresta que consegue unir produção de alimentos e preservação do meio ambiente. “Esse planeta nos dá condições para criarmos recursos e não apenas explorá-los”, ensina Götsch em trecho do documentário Neste chão tudo Dá, lançado em 2008 sobre o seu trabalho.

O que é agrofloresta?

As técnicas e princípios desenvolvidos por Götsch são inspirados na observação dos processos da natureza e na cooperação entre as espécies. O método ensina como plantar vários tipos de alimentos em uma área de floresta sem desmatá-la, ao contrário, caso não existam, é preciso fazer o plantio de árvores nativas, pois um recurso fundamental no manejo da agrofloresta é a poda - que deve ser feita constantemente. Além de fortalecer as plantas que estão em crescimento, é ela a responsável por oferecer matéria orgânica para o enriquecimento do solo e proteger a terra das intempéries do clima.

Ernst Götsch e a zona cacaueira

Quando chegou ao Brasil, em meados da década de 1980, o agricultor comprou uma fazenda no sul da Bahia com aproximadamente 500 hectares de terras consideradas improdutivas. Aos poucos, aplicando as técnicas de agrofloresta, Götsch conseguiu regenerar a flora da Mata Atlântica, atrair animais típicos da região e fazer ressurgir cerca de 15 nascentes. Isso tudo aliado à produção de cacau, banana e muitos outros alimentos. Atualmente, parte de sua propriedade é considerada área de reserva ambiental.

Em suas andanças pelo país, Götsch vem ministrando cursos para agricultores, estudantes e interessados e, através dessa transmissão oral de conhecimento, outras experiências bem-sucedidas começam a dar frutos no Brasil.

Agricultura familiar

No município de Barra do Turvo, extremo Sul do Estado de São Paulo, famílias agricultoras conseguiram aumentar a renda com a prática da agrofloresta sem deixar de conservar cerca de 750 hectares de Mata Atlântica. A transformação começou há 20 anos quando duas famílias participaram de um curso com Ernt Götsch. Dois anos depois, já eram trinta famílias praticando a agrofloresta e comercializando suas produções. Até que em 2003, formalizou-se a cooperativa que recebeu o nome de Cooperafloresta e funciona até os dias atuais.

De acordo com a página da cooperativa, antes da agrofloresta as famílias sobreviviam com uma renda que não ultrapassava 2 salários mínimos anuais, obtida por meio da produção de feijão que era cultivado em terras com acentuado processo de degradação e comercializado em mercados distantes sob altos custos. “Em 2009, mais de 75% das famílias associadas à Cooperafloresta ultrapassou 15 salários mínimos de renda anual acrescida de grandes melhorias na renda de autoconsumo que superou 4 salários mínimos anuais”, informa a cooperativa.

Agenda Götsch: espalhando a agrofloresta

Após o deslumbramento e inquietação do contato com Ernst Götsch, os jornalistas Dayana Andrade e Felipe Pasini decidiram criar o Agenda Götsch, projeto sem fins lucrativos que produz vídeos explicativos sobre a filosofia e as técnicas da agrofloresta. “A forma como Ernst enxerga e entende as dinâmicas naturais é revolucionária. O nosso interesse em registrar e divulgar o trabalho dele surgiu da percepção de que a ferramenta audiovisual seria muito eficiente para comunicar essas ideias mostrando seus resultados práticos”, relatam os jornalistas em entrevista exclusiva ao Portal NAMU. Para eles, a agrofloresta, além de restaurar solos, restaura o otimismo, pois aponta um caminho de convivência harmônica com a natureza.

“Ernst costuma dizer que, trabalhando junto com a floresta, nós podemos produzir tudo o que necessitamos tanto do reino vegetal quanto animal. Acompanhando o seu trabalho, nós temos testemunhado que isso não só é possível como é provável que se torne o novo paradigma porque, ao invés de minerar recursos, essa agricultura garante a produção de hoje ao mesmo tempo em que cria condições para a produção do futuro”, afirmam. Segundo os jornalistas, não é incomum alcançar uma produção de 70 toneladas por ano de alimento em apenas 1 hectare em sistemas de agrofloresta. “Independentemente da escala, a lógica é a da abundância, não da escassez”, pontuam. Desde 2011, quando o projeto começou, já foram 10 vídeos lançados incluindo o vídeo “Life in Sytropy” editado especialmente para a COP21 em janeiro de 2016.

Antes mesmo do projeto ganhar forma, Pasini já havia produzido, juntamente com Ilana Nina e Monica Soffiatti, o documentário Neste Chão Tudo Dá sobre o trabalho de Götsch, lançado em 2008. Abaixo é possível assistir ao filme:

Atualmente, o Agenda Götsch cobre parte dos custos com o patrocínio da Fazenda da Toca, do empresário Pedro Paulo Diniz, que está produzindo alimentos em grande escala com o método de agrofloresta.

“Chegam até nós muitos relatos de pessoas que, depois de assistirem aos nossos vídeos, foram buscar qualificação para trabalhar na agricultura e outras que incorporaram essas ideias em suas atividades nas mais diferentes áreas: professores, chefs de cozinha, arquitetos, escritores...”, comemoram os jornalistas que consideram ser esse o maior lucro do projeto.

Transição

Para Andrade e Pasini, se não for pela consciência talvez a transição da agricultura convencional para a agrofloresta aconteça pela necessidade, já que essa auxilia na regeneração dos ecossistemas e pode ser até mais rentável. “As práticas agrícolas que hoje conhecemos como convencionais dependem de petróleo a baixo custo, têm baixa resiliência às instabilidades do clima e são altamente dependentes de fornecimento ininterrupto de água, sem falar nos custos ambientais e sociais a elas relacionados e que quase nunca são contabilizados”, argumentam. “A agrofloresta funciona e as pessoas que o adotaram estão satisfeitas. A vontade pública e privada é o único ingrediente que falta para acelerar essa mudança, porque o conhecimento e a tecnologia já estão aí”, convidam os jornalistas.