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A educação chegou ao fim, diz Maffesoli

Sociólogo francês Michel Maffesoli explica por que o atual modelo educacional não condiz com a pós-modernidade

Marina Fontanelli

O sociólogo acredita que a direção a ser seguida é o retorno à iniciação, comum em algumas culturas antigas

“A escola acabou. É preciso encontrar outro lugar.” Esse é o pensamento do sociólogo francês Michel Maffesoli. Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, o professor de sociologia da Universidade de Sorbonne explica os motivos que o levam a acreditar na afirmativa. Para ele, o atual modelo educacional está em processo de saturação. “Quando uma máquina funcionou bem por muito tempo, ela se cansa e fica desgastada. A máquina da educação não funciona mais.”

Segundo o sociólogo, a saturação não é um fenômeno exclusivo à educação. “Quando olhamos dois mil anos, que é mais ou menos o nosso tempo histórico, nós vemos bem que a cada três séculos e meio há uma saturação. Há uma transformação do que foi importante para aquilo que está nascendo”, analisa.

A escola acabou. É preciso encontrar outro lugar.

Não faz sentido

Maffesoli acredita que a instituição escolar perdeu o sentido. “É preciso dar novamente o sentido primeiro que tinha a escola. Etimologicamente, do grego, escola significa lazer estudioso, o contrário do ócio”. Com o passar do tempo, as escolas se tornaram convencionais. Elas perderam seu significado original.

O professor deu o exemplo da própria universidade em que leciona. A origem da Sorbonne, em Paris, no final do século 12, está relacionada ao rompimento do controle do ensino que era exclusivo à escola da catedral de Notre-Dame. Com a chegada de mais estudantes, escolas particulares começaram a surgir na cidade para dar conta da demanda. Essas instituições foram se agrupando e se tornaram uma única grande universidade. No entanto, ao longo dos séculos, a Sorbonne perdeu seu aspecto ‘inovador’ e se tornou uma escola convencional.

Qual é o caminho?

Maffesoli é adepto da sociologia do cotidiano, o que significa dizer que ele procura compreender o que está acontecendo com a sociedade agora e não formula certezas sobre o quer irá acontecer no futuro, mas indica caminhos.

Se a educação está fadada ao fracasso, o que estaria por vir? O sociólogo acredita que a direção a ser seguida é o retorno ao processo de iniciação, comum em algumas culturas antigas. “O professor vai se transformar em um iniciador, um guru no sentido daquele que acompanha, concede gravidade e permite estabilidade”, explica.

O principal ponto defendido por Maffesoli é que a educação é um modelo baseado na ideia da verticalidade, do poder, típica da modernidade, enquanto a iniciação estaria fundada na horizontalidade intrínseca à pós-modernidade. “A educação conduz; mas a iniciação acompanha”, resume.

Michel Maffesoli

Estaríamos na transição da educação para iniciação, um processo educacional mais coerente com a pós-modernidade

“Essa mudança já está quase realizada. Eu não estou falando logicamente do Brasil e sim do que eu conheço na Europa”, pontua. Maffesoli divide a sociedade em oficial e oficiosa, na segunda esfera a mudança já estaria ainda mais avançada. Para ele, sociedade oficial é aquela das instituições, da economia e da política. Já as sociedades oficiosas são as pequenas ‘tribos’ que constituem a verdadeira vida.

As redes sociais estão constituindo a inteligência coletiva para melhor e para pior (...) a nova inteligência intelectual é orgânica.

“Há uma grande diferença entre o que eu chamo de sociedade oficial, aquela das instituições que permanecem no caminho educativo, e a sociedade oficiosa, das jovens gerações em geral, que funciona pelo mecanismo da iniciação”, explica.

Para Maffesoli, a cultura dos jovens é mais horizontal. Nela o conhecimento se dissemina de maneira diferente e menos vertical, com uma nova lógica. “É preciso saber acompanhar a época e não se contentar em ser aquele que sabe tudo. A cultura dos adolescentes é muito rica. Não é a minha. Eles não sabem francês ou latim, mas há uma inteligência coletiva. As redes sociais estão constituindo a inteligência coletiva para melhor e para pior (...) a nova inteligência intelectual é orgânica”, diz.

Essa transição está relacionada, na visão do professor, com outra maior que acontece na sociedade como um todo: a ‘irmanização’. Estaríamos sendo conduzidos mais pela ‘lei dos irmãos’ do que pela ‘lei do pai’.

Foto: Marina Fontanelli


A entrevista foi concedida na Associação Palas Athena durante sua visita ao Brasil em setembro de 2014