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Bikes x carros

"O automóvel traz aborrecimento para todos", diz Fredrik Gertten, diretor do documentário que trata da polêmica questão da mobilidade nas grandes metrópoles

Arquivo pessoal

"O conflito está no planejamento da cidade, o qual é muito favorável aos carros", afirma o diretor

A batalha urbanística desse século será pelo espaço das ruas. As cidades do futuro terão, necessariamente, de decidir entre modelos de transporte e nesse começo de disputa uma coisa é certa: os carros estão na berlinda. Uma pequena porção desse embate poderá ser vista nas telas dos cinemas no documentário Bikes x carros, do diretor sueco Fredrik Gertten.

“Eu acho que esse documentário pode ser inspirador para muitas cidades enfrentarem o lobby do automóvel”, acredita a cicloativista Aline Cavalcante, presente no filme.

Durante os anos de 2012 e 2014, o cineasta reuniu depoimentos sobre o tema em várias cidades ao redor do mundo, inclusive, na capital paulista. Entre as entrevistadas está a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik que fala sobre a situação da mobilidade na maior metrópole da América Latina. Em entrevista exclusiva ao Portal NAMU, o diretor Fredrik Gertten conta mais sobre o seu novo longa-metragem que já está em cartaz nas telas brasileiras.

Portal NAMU: Por que o filme se chama Bikes x carros? Você não acha que esse título pode provocar mais ódio entre ciclistas e motoristas?
Fredrik: Eu não acho que o nome do filme seja capaz de criar qualquer tipo de agressão. É meu trabalho como diretor de filmes explicitar os conflitos da sociedade. Existe um conflito óbvio entre bikes e carros, mas o conflito não é entre as pessoas. Muitas até são ciclistas e motoristas dependendo do momento. O conflito está no planejamento da cidade, o qual é muito favorável aos carros e, em razão disso, cria inúmeros problemas não só para os ciclistas. Em São Paulo, as pessoas têm de gastar quase 3 horas por dia no trânsito. Esse planejamento da cidade totalmente favorável ao automóvel gera aborrecimentos para todos, até para quem escolhe pelo carro. O nome do filme é sobre esse conflito.

Aline Cavalcante
Aline Cavalcante

Como é possível mudar essa situação?
Se nós queremos mudar a sociedade, nós precisamos falar sobre esses conflitos, não podemos nos esconder deles. Nós precisamos enxergar que a indústria do automóvel tem muito mais dinheiro e investe em publicidade e lobby. Esse lobby que não quer mudar o mundo. Nós temos de enxergar essas forças.

Muitas pessoas têm resistência para mudar hábitos. Nesse sentido, alguns motoristas ficam bravos por acharem que vão perder espaço para os ciclistas. Como você vê essa situação?
Eu acho que os motoristas deveriam adorar os ciclistas, porque eles cedem espaço aos carros. Quanto mais pessoas decidirem optar pela bicicleta, mais espaço sobrará para os carros, mesmo com as ciclovias. No entanto, as pessoas que estão nos carros em cidades como São Paulo estão muito infelizes. Por que elas estão infelizes? Porque elas têm de passar horas no trânsito. Elas não estão infelizes porque outras pessoas estão indo de bicicleta e sim porque há muitos outros carros na rua.

É claro que é difícil mudar, mas a bicicleta faz parte da solução. Quanto mais seguro for ir de bicicleta, mais as pessoas irão. Em Paris, por exemplo, mais e mais pessoas estão pedalando e é possível notar uma melhora no trânsito. Esse processo pode ser observado em várias metrópoles. As cidades estão crescendo muito e se esse crescimento implicar em muitos carros na rua, como acontece em São Paulo e em outras cidades brasileiras, as cidades vão parar de funcionar. O filme é sobre isso.

Você tem de enxergar a realidade de que nenhuma cidade pode crescer mais com mais carros. Se há vinte ou trinta anos, ter um carro possibilitava ter mais liberdade individual, hoje em dia já não é mais assim. Há 5 anos em Salvador, a venda de carros aumentou 100%. É uma situação dramática. Se você quer mobilidade para todos, para ricos, pobres e classe média, é preciso fazer alguma coisa contra esse planejamento favorável apenas ao automóvel.

Raquel Rolnik
Raquel Rolnik

Muitas pessoas preferem usar o carro por uma questão de status social. Como agir nessa questão?
O carro é um símbolo muito poderoso. Com o carro vem uma identidade. As pessoas assistem aos comerciais de carro há muitos anos. Eles falam sobre independência e liberdade. Isso é uma mentira. Você pode ver isso no meu filme, mesmo alguém como Fábio Mendonça, que aparece em comerciais de carros, não dirige mais, porque é muito frustrante dirigir um automóvel.

O que você pensa sobre participação do setor privado no incentivo ao uso de bicicletas?
Eu acho que tanto as pessoas com mais dinheiro quanto as empresas entendem que situações de tráfego como as que vocês têm em São Paulo também são ruins para a economia. Então, se você quer que os seus negócios funcionem bem em São Paulo, você precisa fazer algo em relação a isso. Nesse sentido, investir no transporte público e nas bicicletas é muito importante.

O que eu vi em São Paulo é que as pessoas que andam de bike amam a cidade mais do que as que andam de carro

Eu estou em Paris e estive em Londres recentemente. Essas duas cidades estão investindo muito em ciclovias. A situação pela qual vocês estão passando, em São Paulo, é algo que está acontecendo nas maiores cidades do mundo. Não é uma questão de ser de esquerda ou ser de direita, porque a mobilidade é importante para a economia.

Bicicleta

Em São Paulo, muitas pessoas acham as ciclovias bonitas na Europa, mas pensam que por aqui, elas não seriam uma boa solução.
O que eu vi em São Paulo é que as pessoas que andam de bike amam a cidade mais do que as que andam de carro. Eu inclusive acho que São Paulo é uma cidade linda e tem potencial para ser uma grande atração turística. O lado ruim da cidade é o tráfego. Se você encontrar uma solução na qual as pessoas sejam capazes de se locomover de outra maneira, a cidade será melhor e as pessoas vão gostar mais dela. Se elas começarem a andar mais de bicicleta, vão começar a amar a cidade, porque São Paulo tem muita cultura e muita história.

Você acha que o filme poderá ser usado como um instrumento para trazer mudanças práticas sobre questões de planejamento das cidades?
Atualmente, o filme já vem sendo usado em muitas cidades ao redor do mundo por planejadores, políticos e ativistas que pensam que se nós olharmos para as forças que já existem, será possível enxergar o que está por vir e, então, planejar melhor para conseguir mudar.