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Bike Anjo: bicicletas nas ruas sem medo

Voluntários ensinam ciclistas como enfrentar o trânsito nas grandes cidades e indicam as melhores rotas

Ivson Miranda

Bike Anjo é um projeto com o objetivo de dar segurança a quem quiser enfrentar as ruas de bicicleta

Usar a bicicleta como meio de transporte é uma solução ambientalmente correta e que pode trazer muitos benefícios a quem adota esta alternativa. Pedalar nas grandes cidades, no entanto, é uma tarefa que exige certa experiência. Como um ciclista iniciante pode começar a se aventurar pelas ruas? A resposta é simples: com a ajuda de um bike anjo.

Eles são ciclistas experientes que um dia resolveram se unir e criar uma ferramenta que ajudasse a multiplicar a quantidade de ciclistas urbanos. Além de ajudar muitas pessoas a saírem do sedentarismo, a iniciativa é relevante para ambiente pois a bicicleta é um meio de transporte totalmente limpo, ou seja, não emite nenhum tipo de poluente na atmosfera.

Pelo site do projeto é possível solicitar três tipos de serviço: indicações das melhores rotas para ciclistas, acompanhamento para pedalar no trânsito e aprender a pedalar. Todas as opções são oferecidas gratuitamente, já que os ciclistas que integram o grupo são todos voluntários e apaixonados pela causa.

Os interessados precisam se cadastrar e informar sua localização. Nos casos da rota ou do acompanhamento no trânsito também é necessário informar o ponto inicial e final do trajeto a ser percorrido. Dessa forma, a ferramenta faz a conexão entre o bike anjo mais próximo e o ciclista iniciante, que recebe o contato posterior por e-mail. Após ambos se conhecerem, eles combinam horário e ponto de encontro para que comecem a missão de colocar as bicicletas nas ruas.

Desde que teve início, em novembro de 2011, o projeto já atingiu 200 cidades brasileiras (apenas o estado de Roraima ainda não tem Bike Anjo oficial). Conta com mais de 1.200 voluntários, que fazem a vez de “professores” para aqueles que querem colocar a bicicleta no dia a dia. A iniciativa já se multiplicou até para outros países e está presente em Chicago, nos Estados Unidos, e Sidney, na Austrália. Em breve, chegará a Toronto, no Canadá. João Paulo Amaral, um dos idealizadores do projeto, explica que mais de 6 mil pessoas já receberam a ajuda de um dos voluntários.

"Esses são os números oficiais, mas a verdade é que bike anjos estão por toda a parte. Qualquer pessoa que já teve o prazer de ensinar alguém a andar de bicicleta ou que incentivou outros a aderirem a essa prática e, principalmente, utilizá-la como meio de transporte, também poderia receber o título de bike anjo. Mesmo sem existir o retorno financeiro, o prazer de compartilhar uma paixão é algo que nenhum dinheiro pode pagar.

Outra cidade e outro trânsito

Quem anda de bicicleta tem um jeito diferente de ver o mundo. Essa é uma opinião compartilhada por muitos ciclistas. A praticidade que uma bike oferece em poder parar em qualquer lugar, sentir a brisa no rosto e enxergar tudo mais perto, sem passar por nenhum tipo de vidro ou outra barreira, muda o jeito de olhar e viver a cidade.

Estar sobre duas rodas também muda a forma de encarar o trânsito. A bicicleta oferece autonomia e permite que os trajetos sejam percorridos sempre na mesma média de tempo, algo impossível para quem depende de transporte público ou carro nas grandes cidades. Nos benefícios também podem ser incluídos: maior disposição e felicidade. “Ser capaz de ir e vir com sua força, sua propulsão, traz muita gratificação”, garante a bike-repórter Silvia Ballan, voluntária no projeto.

Há pedras no caminho. “A falta de respeito e a alta velocidade são as maiores dificuldades", explica Ballan. Ela lembra que os veículos maiores devem respeitar e prezar pela segurança dos menores, conforme a legislação de trânsito brasileira. Além disso, é necessário que seja respeitado o 1,5 m de distância sempre que outro veículo for ultrapassar uma bicicleta. A bike-repórter garante que sente falta de mais cuidado e respeito no trânsito e acha que uma boa opção para torná-lo mais seguro seria a redução nos limites de velocidade das vias, estratégia que deve ser adotada em Paris, com a velocidade máxima instituída para 30 km/h.

Quem prova, aprova e continua

Foi isso o que aconteceu com a cabeleireira Fabíola Maia. Enquanto morava no interior do estado, o contato com a bicicleta era constante. Desde que voltou a São Paulo, em 2003, ela conta que dava apenas algumas voltinhas e na calçada da Avenida Paulista, justamente por medo de pedalar no trânsito.

Dez anos depois, um amigo lhe indicou o projeto. Ela se cadastrou no site e logo começou a pedalar. O voluntário criou uma rota adequada para que ela fosse de bicicleta ao trabalho e a acompanhou em todo o percurso. “O fato de ter um bike anjo ao lado foi muito bom. Meu anjo foi o Wagner Hirata, ele é bem calmo e passa muita confiança, foi maravilhoso”, lembra.

"Desde então, a bicicleta passou a ser seu meio de transporte", comenta. Maia garante que muita coisa em sua vida mudou a partir dali. “Eu trabalhei por sete anos em shopping, aquele negócio de não ter domingo e feriado, e estava com tanta exaustão que já tinha sintomas físicos relacionados ao trabalho. Voltar a pedalar me devolveu a tranquilidade. A insônia, que já estava constante em minha vida, foi a primeira a ir embora”, comemora.

Agora uma ciclista urbana, Fabíola Maia não se contentou em ter este prazer só para si. Hoje ela também é uma bike anjo, com muito prazer. “Resolvi fazer parte dos voluntários porque acho que é a única forma de retribuir. Eu me apaixonei pelo projeto”. Segundo ela, uma das histórias marcantes foi a oportunidade de ensinar uma senhora de 65 anos a andar de bicicleta.

Além da ferramenta disponível no site, o Bike Anjo organiza outras ações:

Escola Bike Anjo (EBA) é um evento mensal que já está presente em 13 cidades brasileiras. Uma vez por mês, voluntários se reúnem para ensinar pessoas que nunca andaram de bicicleta a pedalar. Existem ações pontuais direcionadas especialmente à terceira idade e até mesmo a crianças. Mesmo assim, qualquer um é bem-vindo em todas as aulas.

Dia de Bike ao Trabalho Anualmente, o grupo é o responsável pela mobilização que incentiva pessoas a testarem por um dia o uso da bicicleta como meio de transporte para ir ao trabalho. Neste ano, o movimento aconteceu no dia 9 de maio e contou com a participação oficial de mais de 1.150 pessoas em 15 estados.

O Bike Anjo também terá ações que ocorrerão durante a Copa do Mundo de Futebol e eventos especiais para o Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro).