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Arte de rua é uma forma de resistência

Obras do artista plástico Enivo são uma tentativa de humanizar a São Paulo tomada pelo cinza dos muros altos

Divulgação Enivo

A cidade grita de maneira silenciosa. As paredes, os prédios, os carros, o trânsito, as pessoas, as buzinas. Tudo cheio, aprisionado, cinza e sufocado. Essa é a sensação que metrópoles como São Paulo provocam nas pessoas que nela chegam pela primeira vez. A grandiosidade assusta e condiciona os moradores ao caos da rotina e à indiferença das paredes de concreto.

Romper é você pintar o que quiser, sem querer agradar

Na contramão dessa paisagem acinzentada, há cerca de quatro décadas, pinturas e artes começaram a surgir nos muros de das edificações. Gravuras, grandes imagens, letras e mensagens de luta e resistência passaram a contrastar e colorir a maior cidade da América do Sul.

Grafite Enivo

Para o grafiteiro Enivo, a arte é utilizada para provocar reações diversas e não apenas para agradar

“O grafite tira as pessoas do estado comum, da rotina e faz com que elas se sensibilizem com a arte”, diz Marcus Vinicius, o Enivo, grafiteiro paulistano do Grajaú, extremo sul da cidade de São Paulo. Ele faz parte da nova geração de grafiteiros do Brasil, que se destaca dentro e fora do país.

Essa arte foi durante anos marginalizada pelo poder público. Hoje ela é cada vez mais reconhecida como fundamental para tornar as cidades lugares mais interessantes e agradáveis. Suas cores são uma luta pela humanização da megalópole.

Grafite Enivo

"O grafite, ao dialogar criticamente com a complexidade dos espaços públicos, tem o potencial de propiciar aos moradores e visitantes das cidades o contato com novas experiências do sensível, que os coloquem em estado permanente de questionamento", afirma Paulo Verano, autor da dissertação de mestrado "Por uma política cultural que dialogue com a cidade", apresentada na Escola de Comunicações e Artes da USP.

"Em São Paulo há liberdade para isso", diz o artista Enivo. "Eu vejo poucos lugares do mundo onde se pode fazer grafite em plena luz do dia, em lugares públicos, na cidade inteira. Isso é algo único", completa.

Grafite Enivo

“A arte serve pra isso, não só para agradar, mas para provocar reações diversas. Eu creio que há um momento de reflexão ao se deparar com uma obra. A pessoa se sensibiliza por gostar, talvez não entenda, mas acha belo. Eu comecei a pintar as paredes aos 12 anos com o objetivo de existir por ver meu nome estampado nos muros”. O grafiteiro afirma ter consciência de que suas obras despertam curiosidade e provocam os passantes. Ele é mais um dos artistas que luta para transformar os espaços públicos em galerias de arte moderna.

Essa luta em São Paulo é antiga. Prova disso é que em julho de 2008, um muro de 700 metros quadrados no centro da capital paulista, grafitado por diversos artistas, entre eles Os Gêmeos, foi recoberto de tinta cinza, seguindo uma política de limpeza urbana da Prefeitura. O documentário Cidade Cinza, lançado no final de 2013, retratou o episódio e revelou ainda qual era o processo para decidir o que era arte e o que não era. Os documentaristas Guilherme Valiengo e Marcelo Mesquita acompanharam o trabalho dos funcionários da Prefeitura responsáveis por apagar os desenhos. O filme mostra que o critério para apagar ou não o grafite ficava a cargo dos funcionários. Em alguns casos eles decidiam esconder apenas parte do trabalho; em outros, pintavam tudo de cinza.

Grafite Enivo

“O grafite é uma resistência, uma militância que eu carrego. Só o fato de pintar na rua, já demonstra que estou reivindicando algo, lutando por direitos. Penso que com essa atitude estou afirmando que pertenço à cidade”, conta Enivo.

Assim como a história de outros jovens, ele se salvou pela a arte. "Na minha infância, antes de começar a pintar, eu queria ter uma arma. Aos 12 anos eu comecei a grafitar e entendi que o spray era minha arma", relata. Segundo ele, trabalhar com os muros e com a rua amplia a forma de olhar, aprender a decodificar a cidade e reconhecer as mensagens em cada lugar.

Grafite Enivo

O caminho percorrido pelo grafite e pelos grafiteiros em uma cidade como São Paulo foi e ainda é de luta e persistência. Enivo conta que quando ele nasceu, a chamada velha guarda do grafite já lutava para ver a arte sobreviver nos muros da capital. "O prestígio que começa a ser vivido hoje são os primeiros frutos colhidos de um plantio intenso", conta o grafiteiro. Segundo ele, há grande respeito e admiração com a primeira geração que lutou intensamente para que hoje essa arte fosse reconhecida e fazer parte de galerias, museus, exposições, entre outros espaços de difusão cultural.

O artista estreou no último sábado, dia 15, a exposição Âmago, com obras que relatam sua trajetória na vida e na arte. A mostra é gratuita e está disponível na galeria A7MA, na Vila Madalena, em São Paulo. O projeto pode ser visto até o dia 13 de dezembro de 2014.