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“Eu sonho em ver uma sociedade em que a educação aconteça de um jeito que transborde", diz André Gravatá

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Evento coloca em debate a educação como uma ferramenta de transformação social que precisa ser reinventada

Quando se fala em educação, automaticamente associamos o tema ao tempo de vida que todos nós passamos inseridos no ensino obrigatório, o qual muita vez é antiquado e um tanto quanto sem graça. Vencer esse modelo é o desafio de muitos educadores e empreenderores sociais. Eles acreditam que a escola pode ser algo interessante, atrativo e divertido.

“Eu sonho em ver uma sociedade em que a educação aconteça de um jeito que transborde. A sala de aula que transborda a própria escola e aquela onde a gente percebe que se aprende em todo lugar e que todo mundo é educador”, diz André Gravatá, jornalista e mobilizador social. Ele faz parte de uma equipe de jovens que fundou o coletivo Educ-Ação, que busca promover iniciativas que transformem a maneira como o ensino é visto e aplicado no Brasil.

A mudança necessária à educação é defendida pelo educador José Pacheco, criador da Escola Autônoma da Ponte. Ele afirma que hoje a forma como a escola foi construída faz com que tudo que se ensina dentro dela é possível se aprender fora desse local.

Em uma roda de debate sobre “Educação e Sustentabilidade” promovida durante a programação da Virada Sustentável 2014, um grupo de agentes transformadores expôs projetos e propostas que contribuem para a evolução do conceito de sustentabilidade – que vai além da temática ambiental. A prosa fortaleceu a ideia de que uma sociedade sustentável é, acima de tudo, aquela na qual todos possuem oportunidades iguais e possibilidade de crescer e aprender em harmonia com o meio e com as pessoas. Gravatá, Alexandre Cabral da Biblioteca Becei de Paraisópolis e Isabela Menezes da Oficina da Sustentabilidade discutiram ferramentas de transformação social no espaço do Impact HUB na Vila Madalena, em São Paulo.

Volta ao mundo da educação

A inquietação por conhecer diferentes comunidades de aprendizagem fez com que André Gravatá e um grupo de amigos, através de um projeto de financiamento coletivo, escrevesse o livro Volta ao Mundo em 13 Escolas. A iniciativa teve como finalidade captar experiências educacionais inovadoras em escolas de vários lugares do mundo. O grupo de quatro pessoas percorreu nove países por quatro continentes e registrou ideias, inspirações e propostas que pudessem ajudar na mudança do sistema educacional brasileiro. O livro foi produzido em Creative Commons e pode ser encontrado pala leitura no link: Volta ao Mundo da Educação.

O menino que mudou Paraisópolis

Alexandre Cabral, morador de Paraisópolis, fundou aos 14 anos de idade a primeira biblioteca no mundo localizada dentro de uma favela. O local se chama Biblioteca Becei. O jovem paulistano começou a trabalhar com educação aos 10 anos, quando organizava aulas na “escolinha” dentro da casa onde vivia com sua família. No entanto, após quatro anos teve de abandonar a vocação de lecionar. O motivo foi a falta de espaço, já que sua residência não comportava os sessenta alunos que frequentavam suas aulas.

Ele resolveu mudar o ramo e o rumo de sua história. “Eu tinha 15 livros e comecei a emprestar para as pessoas que se interessavam, inicialmente por apenas um dia”, conta rindo. Cabral acreditava que as demais pessoas, assim como ele, tinham a capacidade de ler rapidamente, por isso o prazo de um dia para devolução. Com o passar do tempo e uma logística mais organizada, o mobilizador adquiriu mais obras para seu acervo e cada vez mais leitores. O tempo de empréstimo também aumentou e aos pouco a biblioteca se tornou um ponto oficial de difusão de conhecimento em Paraisópolis.

“Em um mês eu recebi mais de 8 mil livros para a biblioteca”, conta Cabral. Após ser descoberto pela mídia, o menino de Paraisópolis que criou uma biblioteca em alguns metros quadrados virou notícia em todo o país. Em pouco tempo o acervo cresceu e hoje possui hoje mais de 12 mil livros catalogados.

Ele acredita no Brasil

"Muita gente fala que o brasileiro não tem costume de ler e eu provei que, na verdade, não há oportunidade. Nosso projeto está lá para mostrar que temos uma comunidade leitora que tem cultura e tem educação", defende Cabral. Ele conta também: "eu sempre gostei de ler, mas as bibliotecas ficavam longe da minha casa e foi isso que me inspirou a fazer algo pela população que também não tinha esse acesso."

A biblioteca conta hoje com mais de 33 mil associados que utilizam os livros do projeto para leitura e pesquisa. "As crianças que visitam o espaço vão até lá pelo prazer da leitura e não pela obrigação", pontua. Segundo relata, Cabral nunca imaginou que o projeto tomasse essas proporções."Desde que começou, a biblioteca vive cheia de gente, crianças e adultos que procuram o projeto com frequência."

Cidades em transição

Isabela Menezes é arquiteta, carioca e tem 51 anos. Há dez anos, quando já se encontrava com a vida estabilizada, mas fundamentada no excesso de trabalho, resolveu largar tudo para dedicar seus dias à transformação social. “Eu abandonei tudo que fazia, mas ainda não sabia o que estava buscando, até que conheci o movimento Transition Towns (Cidades em Transição)."

“Tudo que eu queria era trabalhar em comunidade, e o Transition é uma tecnologia que fornece ferramentas para que você, junto com a sua comunidade, encontre soluções mais sustentáveis para a vida em cada local”, diz Menezes. Ela participou da criação do Transition Granja Viana, que trabalha nas cidades ao redor dessa região.

“No Brasil, temos 26 grupos que utilizam esse nome, fora as iniciativas informais de pessoas transformando suas realidades. O movimento é aberto e qualquer pessoa pode utilizar os materiais para divulgar e promover as ideias desse projeto." A arquiteta afirma que entre os principais aprendizados está a mudanças nos hábitos de consumo. Para ela, a maior conquista foi aprender viver com pouco e reduzir a pegada ecológica na Terra.

“Nós trabalhamos com transformação social, unindo ideias e inspirações para conectar empresas, instituições e as pessoas da comunidade." Segundo ela, a criatividade anda junto com a falta de dinheiro e se apresenta como a melhor tecnologia para que se crie novas possibilidades de viver com menos. “Isso trouxe para a minha vida um novo sentido e eu sinto que mundo precisa de pessoas que se envolvam para mudar”, completa Menezes.