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Alfabetização só depois dos 7 anos?

O método educacional pode estimular mais o lado direito ou esquerdo do cérebro

Jaap Joris / Flickr: School's out / CC BY-SA 2.0

Salas de aula sem mesas e cadeiras, onde os alunos não são obrigados a copiar o que o professor escreve na lousa, muitos trabalhos artísticos, pinturas nas paredes e poucas letras ou números por perto. Assim são as escolas Waldorf. Sua maior força reside em apostar no lúdico e deixar a criatividade da criança correr solta.

Em outros métodos de ensino, principalmente os mais tradicionais, o grande aliado dos iniciantes na escrita é o caderno de caligrafia. Aqueles que não conseguem escrever o nome naquele no espaço definido entre duas linhas da folha podem ter a letra classificada como garrancho. O mesmo processo não acontece com quem é aluno do método embasado nos estudos antroposóficos do austríaco Rudolf Steiner.

Segundo seus ensinamentos, a alfabetização só pode ser iniciada após os sete anos e a função principal da escola, sobretudo nesse período inicial, é estimular o pensar criativo e artístico. “A criança aprende através do brincar, que é uma ação criativa. O tempo da criança é o da fantasia. Ela brinca o tempo todo. Por exemplo, se ela pega um chuchu e espeta nele um palito de fósforo, o chuchu vira um porquinho ou uma vaquinha”, conta o médico e docente da formação em medicina antroposófica, Rômulo de Mello Silva.

“Um pensar intelectual morto sem fantasia e sem invenção não serve. É um pensar que copia e repete. A formação do ser humano deve ensinar a ser livre”, diz ele.

As contribuições da neurociência para a pedagogia Waldorf são inúmeras, assim como as polêmicas sobre os métodos de ensino proposto.

Debate sobre neurociência e alfabetização
Rômulo de Mello Silva (segundo da dir. para esq.): "A formação do ser humano deve ensinar a ser livre”

Etapas evolutivas

Para antroposofia, os três primeiros setênios da vida (0 a 7 anos, 7 a 14 anos e de 14 a 21 anos) possuem determinadas características e o ambiente escolar deve ser moldado levando em conta essas fases. Atualmente, alguns neurocientistas vêm buscando evidências que associam os processos cerebrais com cada período.

Segundo Ricardo Ghelman, médico pediatra, clínico geral e membro da coordenação do Núcleo de Medicina Antroposófica (Numa), “a primeira infância tem uma superprodução de sinapses, que se formam só nesse período da vida: são os neurônios espelho, criados para estimular a prática da imitação”. Ele diz que depois dos 7 anos, eles desaparecem em grande parte.

Para Ghelman e outros antroposóficos, "o segundo setênio de vida se caracteriza pela formação de sinapses na área pré-frontal, a que difere o ser humano dos outros animais. Nessa fase, se estabelecem relações mais afetivas e racionais. Esse período termina mais ou menos aos 12 anos, quando ocorre a mudança hormonal na criança e o cérebro muda”.

“A terceira infância, que vai até os 21 anos, é um período muito importante: o da travessia. O indivíduo que tinha como referencial pai, mãe e educadores vai buscar o referencial de si mesmo", diz Ghelman. "Nessa etapa, só aumentamos as sinapses se nós tivermos interesses e experiências. Por isso, uma pedagogia que estimula o interesse pelo mundo, pelos outros e que utiliza a arte para não engessar, permite que novas sinapses, ou seja, novos cérebros sejam formados”.

O neurocirurgião especialista em medicina antroposófica Maurício Baldissin concorda com ele a respeito de que estímulos adequados devam ser oferecidos em diferentes etapas evolutivas. “Na vida adulta também é preciso manter esses estímulos para produzir melhor resposta imunológica e um número menor de doenças crônicas”, diz ele.

Debate sobre neurociência e alfabetização
Maurício Baldissin, neurocirurgião: "É preciso assegurar a estimulação e vivência ativa das percepções"

Polêmica: quando começar a escrever?

Estudos feitos pelo matemático e neurocientista francês Stanislas Dehaene, autor do livro Os neurônios da leitura, indicam, por exemplo, que o método mais eficaz de alfabetização é o fônico, aquele que ensina as letras através da correspondência fonética de cada uma delas. Nesse sentido, quanto mais cedo a criança começa a fazer essas associações, melhores são os resultados.

A questão do tempo certo para alfabetizar costuma gerar discussões. Estudos feitos pela Unesco indicam que atrasar esse processo pode prejudicar o desenvolvimento escolar. De acordo com o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, do Ministério da Educação, toda criança deve ser alfabetizada até os 8 anos de idade.

Pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC), todas as crianças de 4 e 6 anos completos até o dia 31 de março devem ingressar na pré-escola e no ensino fundamental, respectivamente. Isso significa iniciar o processo de alfabetização.

Para os pedagogos ligados às escolas Waldorf, no entanto, como as pessoas se desenvolvem em ciclos de 7 anos, elas começariam a ser alfabetizadas mais tarde do que defendem o MEC e o CNE. Em razão disso, há uma enorme polêmica em torno do assunto.

Para se ter uma ideia do problema, em 2013, o governo de São Paulo estabeleceu uma meta para atingir a alfabetização de todos os alunos do Estado até os 7 anos. Foi criada, inclusive, uma nova prova para alunos dessa faixa, isto é, aqueles que estão cursando o segundo ano do Ensino Fundamental 1. As escolas Waldorf, por sua vez, contestam a decisão de iniciar a alfabetização aos 6 anos, como querem o Ministério da Educação e o governo de São Paulo.

Além de toda a discussão em torno da alfabetização em si, a questão envolve ainda o desempenho. É importante salientar que os cinco primeiros colocados no teste Pisa aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em alunos de 15 anos, de 70 países, são: Xangai, Coreia do Sul, Finlândia, Hong Kong e Cingapura. Nesses países, as crianças, aos 6 anos de idade, já estão todas alfabetizadas.

A teoria e os estudos

A teoria de Rudolf Steiner sobre a alfabetização após o primeiro setênio se baseia no período em que ocorre na criança a troca dos dentes. “Uma vez a federação Waldorf me convidou para buscar argumentos neurológicos contra a alfabetização precoce, porque o MEC (Ministério da Educação) não vai mudar o sistema do Brasil por causa da troca dos dentes. Uma descoberta associada à causa foi que, no sétimo mês da gravidez, ainda no período embrionário, o cérebro começa a receber uma bainha de gordura, a bainha de mielina, que recobre os neurônios. Esse processo dura entre 6 e 7 anos. Portanto, coincide a conclusão do processo de mielinização com o período que o Steiner propôs para a alfabetização”, relata Ghelman. “A alfabetização estimula muito uma parte do cérebro racional, para uma criança com menos de 7 anos, isso leva a um desgaste”.

Debate sobre neurociência e alfabetização

Baldissin pondera que não existe uma área específica do cérebro para a escrita. “A representação cerebral do processo de escrever forma-se à medida que ocorre a aprendizagem. Essa representação não impregna determinada área do cérebro para formar um ‘centro da escrita’”.

A afirmação entra em choque com alguns estudos realizados na área da neurociência, como os de Stanislas Dehaene e do grupo de pesquisadores que coordenou o trabalho Neuroscience: implications for education and lifelong learning, da instituição britânica The Royal Society.

O esquerdo e o direito

O método educacional também pode ser responsável por estimular mais o lado direito ou esquerdo do cérebro. A parte direita é associada à imaginação, criatividade, organização espacial, entre outras características; e a esquerda à lógica e racionalidade, por exemplo.

“A nossa cultura hegemônica é a do cérebro esquerdo. Ser um ótimo aluno em matemática é muito mais valorizado do que ser um ótimo artista. Se pensarmos em qualquer pedagogia que vai contra essa corrente, já é um grande bem para humanidade”, enfatiza Ghelman.

“A neurociência pode ajudar a compreender que o ensino tem uma dimensão muito maior do que apenas o conhecimento”, conclui.

Fotos: Marina Fontanelli