Fundamentos

Dualismo metafísico. Há uma dualidade ontológica e gnoseológica fundamental: 1) o mundo inteligível, o mundo do autêntico ser, da unidade, da imutabilidade, das ideias, da essência, da ciência (episteme); 2) o mundo da percepção humana, ou o mundo da aparência; da multiplicidade, da mudança, da imagem, da ilusão, da corrupção, e da opinião (doxa).

Mundo das Ideias. São as essências eidéticas do mundo inteligível. Só o mundo das ideias é real, porque têm uma existência independente. Cada ideia é uma “substância”, uma realidade transcendente, em que a realidade do mundo sensível é apenas uma participação no mundo inteligível. A ideia de beleza é aquilo pelo qual as coisas são belas. Cada Ideia é única, eterna, imutável, atópica e acrônica. Uma ideia pode participar da outra, em uma comunicação (koinonia) e combinação (symploké). E a relação de uma ideia com a experiência cotidiana pode ser dada pela imitação, pela mimésis que o sensível tem do inteligível.

A alma. Platão distingue o corpo (soma) da alma (psyché). Ela é o intermédio entre os dois mundos, o autêntico e verdadeiro do homem. A eternidade e a imortalidade da alma são a essência e o fundamento do conhecimento humano enquanto pertence ao mundo das ideias. Platão estabelece uma divisão tripartite da alma, em que para cada parte corresponde uma virtude cardinal: a virtude do racional é a prudência, do irascível é a fortaleza, e da concupiscência é a temperança. Porém, a principal virtude é a justiça, que nasce quando uma das partes da alma cumpre a sua tarefa.

O amor. O amor é também uma das formas pela qual o homem tem acesso ao inteligível. É um meio, uma dialética passional de ascender às ideias, das coisas sensíveis ao belo. O famoso “amor platônico” consiste nessa ascensão à beleza, em trechos que pode ser conferido no Fedro e no Banquete. O amor é o filósofo, e a razão dele é esta afinidade da alma com as ideias.

A reminiscência e a maiêutica. No diálogo Menon, e depois no Fedon e em Fedro, surge o tema de que aprender e conhecer é recordar. A consequência é que a compreensão de educação para Platão está na capacidade de se chegar às verdades últimas como algo inato a todos os homens. É nessa chave que entendemos a inscrição de Apolo aos Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, em que esse conhecer é encontrar em si mesmo o que já foi conhecido. A maiêutica socrática, da qual trata Platão, é o modo como Sócrates conduz seus interlocutores a descobrir a si mesmos, a tomar consciência de suas riquezas implícitas. Pelo diálogo e a maiêutica o exercício filosófico consiste em revelar esse conteúdo secreto, organizando-o pela razão.

A dialética. A dialética é a noção de unidade entre os opostos. É o procedimento que permite aceder do sensível ao suprassensível por etapa, de hipótese em hipótese. Partindo do conteúdo concreto, pode encontrar uma definição abstrata de algo, e por sua vez a determinação de outras coisas. Ela parte de uma espécie, o seu aspecto (eidos), para uma determinação superior (gênero), que contém tanto a definição da espécie como o seu oposto.

Platão chama de dialética também o conhecimento das relações entre as ideias (symploké), determinando, definindo e passando de uma à outra, assumindo a interdependência das determinações. Nesse procedimento dialético, seria possível chegar a uma determinação última e definitiva, ascendendo (synagogé, anairein) a um último acesso. Seria o ente, a ideia de todas as ideias, como a ideia do Bem. Haveria, assim, uma dialética ascendente, que se eleva de ideia a ideia, eliminando todas as hipóteses, até chegar a ideia de Bem. Nela, do múltiplo se chega ao uno, descobrindo-se o princípio de cada coisa.

É a dialética que Sócrates usa em seus diálogos morais. Haveria também uma dialética descendente (diaíresis), que trata de desenvolver, mediante o poder da razão, as diferentes consequências daquele princípio, porém sem uma hipótese, e sim tentando reconstruir todas as Ideias sem recorrer à experiência. É através dessa dialética que Platão constitui a verdadeira filosofia, ou filosofia acadêmica, sistematizando o método filosófico.

Crítica à democracia. Platão desenvolve uma crítica ao regime democrático, compreendendo-o como não governável. Seu argumento se baseia na relação entre saber e poder com as multidões, produzindo ao final um sistema político na desordem, conduzindo à tirania e à imoralidade de cada um. A multidão (hoi polloi) é assimilável por natureza a um escravo com suas paixões e interesses passageiros, sensível à adulação e incapaz da reflexão justa e rigorosa. Quando a multidão elege seus magistrados, ela o faz em vista de suas qualidades oratórias, inferindo do discurso as suas capacidades políticas. A dinâmica das assembleias não levaria senão a uma disputa entre opiniões subjetivas inconsistentes, rebaixando a qualidade da tomada de decisões no regime político.

As classes sociais e a cidadania. A teoria política de Platão está intimamente ligada à sua teoria da alma. Assim, haveria três tipos de homens, igual às três partes da alma:

1) os filósofos (ouro), que representam a sabedoria do estamento educador e governante, são a parte racional da alma, cuja virtude é a prudência;

2) os guardiães (prata), com a missão de defender a cidade e prestar ajuda aos governantes, são a parte irracional da alma, tendo como virtude a fortaleza;

3) os trabalhadores manuais (ferro), encarregados de satisfazer as necessidades primárias dos habitantes da cidade, com a virtude da temperança, e equivalendo à parte concupiscente da alma.

Cada um desses estamentos da cidade realiza sua tarefa, cumprindo a virtude da justiça, ao culminar e sintetizar as demais virtudes. A cidade não estará formada por uma população homogênea, mas por classes distintas. Coabitadas, realizam um tipo de perfeição nessa hierarquia unificada, formando uma unidade política e moral. Essa teoria que une as diferenças naturais entre os homens é transmitida à posteridade como um exemplar aristocrático do bom governo.

A uma educação para a pólis o tema ético está ligado ao gnoseológico. A verdade e a justiça são só dois grandes temas que aparecem nos diálogos de Platão: só o sábio pode ser bom e justo. O sábio pode ser virtuoso e feliz porque distingue as coisas boas daquelas que são ruins, e só eles podem dirigir um Estado igualmente justo, construindo uma sociedade harmônica, justa e feliz. A educação está destinada a formar uma elite intelectual.

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