Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Saiba mais sobre

Santo Agostinho e o conceito de interioridade

Filósofo africano dedicou parte de sua obra na busca da compreensão da fé cristã e da existência de Deus

Helgi Halldórsson / Flickr: Wise Old Man / CC BY-SA 2.0

Ao dedicar importância demais ao mundo virtual, a pessoa se depara com uma dificuldade de encontrar alguma estabilidade, mesmo que transitória

"A quantidade de curtidas no Facebook define a existência de uma pessoa". Essa afirmação, apesar de ser excessivamente polêmica e simplificadora, nos chama a atenção para a importância e o valor que as redes sociais alcançaram no mundo contemporâneo. A continuidade ou a interrupção da vida biológica de um ser humano não são definidas pelo tipo de interação que o seu perfil estabelece com outros perfis. No entanto, nos encontramos em uma época em que o vigor e a potência de uma pessoa podem ser facilmente afetados por sua relevância (ou não) no ambiente virtual.

Para algumas correntes extremistas, são as próprias redes sociais que provocam a dependência de uma pessoa em relação a elas. Essa responsabilização justificaria a eliminação absoluta das redes sociais como solução desesperada para pôr fim àquela dependência. Os estudos mais básicos da psicologia humana nos mostram que essa dependência está relacionada à função e ao sentido atribuídos por aquela pessoa às redes sociais. Assim, elas possibilitariam essa dependência, mas não seriam a sua causa.

Os eventos de uma rede social (postagens, curtidas, compartilhamentos, convites etc.) são, em sua maioria, velozes e fugazes. Ao dedicar importância e valor demasiados ao mundo virtual, a pessoa se depara com uma dificuldade cada vez maior de encontrar nessa infinita plataforma de relacionamentos alguma estabilidade, mesmo que transitória. A percepção de que algo falta pode tornar-se cada vez mais intensa, a ponto de influenciar sobremaneira suas relações interpessoais.

Ao reconhecerem a instabilidade dos fenômenos do mundo, diversos filósofos se dedicaram a explorar o que fosse estável, imutável, eterno. Dentre esses filósofos, Agostinho de Hipona (354-430), também conhecido como Santo Agostinho, foi o primeiro não só a apresentar, mas também a realizar o caminho da interiorização para alcançar esse objetivo. É com ele que conhecemos o conceito de interioridade, e será em seu interior que Santo Agostinho encontrará a solução para suas inquietações.

Agostinho de Hipona nasceu em Tagaste, no norte da África. Foi nessa região que ele concluiu os estudos e começou a lecionar retórica. Entrou em contato com a filosofia e com a doutrina dos maniqueus, a qual declarava haver dois princípios antagônicos que governavam o mundo: o bem e o mal. Com o tempo, Agostinho foi se afastando do maniqueísmo, o que o levou a deixar a seita e a se dirigir para Roma, em 383. Foi na Península Itálica que teve contato com o neoplatonismo de Plotino. Lá ele também se converteu ao cristianismo, em 386. A mãe de Agostinho era cristã, mas seu exemplo e seus ensinamentos não haviam tocado o coração do filho.

Quando investigou racionalmente a existência de Deus, Agostinho já era cristão. Sua fé já o havia levado a crer na existência divina, mas não a compreendê-la. Como filósofo, Agostinho pretendia compreender o conteúdo dessa fé. Assim, era preciso certa dose de entendimento para crer na doutrina cristã. Portanto, depois de admitida, a doutrina cristã exigia ser compreendida. Era preciso crer na trindade ou na existência de Deus para, somente em seguida, compreender esses dogmas.

Ao iniciar sua investigação da existência de Deus, Agostinho nota que as sensações o informam sobre os corpos exteriores e sobre o estado de seu próprio corpo. Vejamos três exemplos. A modelo tornou-se famosa, um profissional é promovido, desejo esse bolo de chocolate. Em momento seguinte, a modelo cai no esquecimento, o profissional é demitido, estou farto de tanto comer bolo de chocolate.

Se prestarmos atenção às nossas sensações, veremos que elas nos informam sobre a instabilidade dos objetos sensíveis e do estado de nosso corpo: a modelo deixou de ser famosa, o profissional foi demitido por acaso e nem sempre eu desejo comer bolo de chocolate. Por esse motivo, não podem nos informar de conhecimento algum, pois o conhecimento verdadeiro é sempre o conhecimento de algo necessário, eterno e imutável. A verdade não pode ser fruto do acaso, não pode estar sujeita às variações do tempo e não pode ser suscetível de sofrer transformações.

Ao perceber que as sensações não podem fornecer o conhecimento verdadeiro, Agostinho desloca sua atenção para a parte superior de sua alma: a razão. Há dois tipos de conhecimento racional que cumprem a exigência de serem necessários, imutáveis e eternos: a aritmética e a sabedoria (que poderia ser chamada de juízos de valor ou de princípios éticos). Se investigarmos as operações aritméticas veremos que podemos dispensar quaisquer conteúdos das sensações para poder efetuá-las. As sensações não nos ensinam nada a respeito da aritmética, seja sobre seu funcionamento, seja sobre sua origem. O mesmo se pode dizer da sabedoria: os fenômenos naturais e sociais não nos dizem como devemos nos conduzir eticamente.

A aritmética e a sabedoria, além de serem necessários, imutáveis e eternos, também são conhecimentos partilhados por todos os homens. Ambas não são o resultado da elaboração intelectual de uma seita ou de um povo, mas todo e qualquer homem pode ter acesso a elas.

Por fim, as operações aritméticas e os princípios éticos não são de forma alguma ajuizados pela razão. A razão não cria as regras das operações aritméticas nem determina o modo de seu funcionamento, da mesma forma que não é capaz de elaborar mandamentos morais e de testá-los na vida prática, averiguando quais são verdadeiros e quais são falsos. Diante da aritmética e da sabedoria, cabe à razão apenas se curvar e conceder seu assentimento, reconhecendo que esses dois conhecimentos não foram forjados por ela.

Apesar de serem estáveis e de não serem forjados pela razão, a aritmética e a sabedoria são conhecimentos partilhados por todos os homens. Esses dois conhecimentos, portanto, só podem ser superiores à própria razão, o que demonstra que em todo homem há algo que o excede, que não é derivado nem de sua parte mais excelente. A aritmética e a sabedoria podem ser conhecidas pelo homem, mas nunca foram o produto de seu próprio engenho.

Agora, podemos finalmente dizer que o percurso ascensional de Agostinho, que partiu do mundo exterior em direção ao mais íntimo de seu mundo interior, não nos conduziu somente a conhecimentos superiores à razão, e sim à própria verdade. A sabedoria e a aritmética são o signo da própria verdade: conhecimentos necessários, imutáveis e eternos; conhecimentos partilhados por todos os homens; conhecimentos superiores à razão. E, se não houver mais nada superior à verdade, então finalmente alcançaremos o fim desse percurso: o conhecimento da existência de Deus. Deus é a verdade e a verdade é Deus.

Para encontrar a verdade, Agostinho realizou o caminho da interiorização. Notou que os objetos sensíveis e que os estados de seu corpo não podiam lhe informar nada sobre o conhecimento verdadeiro. Por isso, caminhou mais decididamente. Nessa jornada, atingiu o limite extremo da intimidade de seu interior. Ao alcançar esse limite, não conheceu apenas a verdade e sim o próprio Deus.

Em seu interior, Agostinho encontrou a verdade: Deus. Em uma sociedade como a nossa, demonstrar a existência de Deus pode não ser o objetivo de vida da maioria das pessoas. Além disso, não nos é mais possível afirmar que alcançaremos a verdade por meio de uma introspecção. Entretanto, a interiorização ainda pode nos revelar nossos próprios saberes. Não aqueles que servirão de regra de conduta para toda a humanidade, mas aqueles que podem esclarecer melhor os nossos passos, contribuindo para que aprendamos o que jamais imaginávamos aprender ou nos mostrar como eles já se tornaram gastos e apagados, nos levando a desaprender o que sempre pareceu tão estável e verdadeiro.

Foto: DiNo / Flickr: Art Dino / CC BY 2.0


Veja também: