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Psicoterapia e a expressão do ser

O método fenomenológico-existencial contribui para o paciente buscar suas próprias respostas em situações que se apresentem ao longo da vida

José Carlos Cortizo Pérez / Flickr / CC BY 2.0

A psicoterapia é atualmente conhecida em razão de sua prática clínica e validada como uma forma de atendimento que busca cuidar das questões voltadas ao sofrimento humano, como transtornos, distúrbios, crises, conflitos, entre outros. Pode ser compreendida como um espaço que privilegia o desenvolvimento afetivo-emocional e contribui para que haja transformações significativas na maneira como o sujeito conduz suas relações no mundo e descobre novas formas de lidar com as dificuldades de sua vida.

Como recurso eficaz no tratamento psicológico, a psicoterapia promove a elaboração da experiência atribuída enquanto causa do sofrimento psíquico e auxilia na busca de sentido na construção da autonomia e desenvolvimento de habilidades, que até então não eram reconhecidas pela pessoa.

Ela possui também um importante papel na área da saúde por conceber o ser humano em sua integridade e considerá-lo em suas dimensões psíquica, orgânica, social e espiritual.

O que é setting terapêutico?

Apesar de existirem diferentes concepções quanto aos possíveis méritos e benefícios atribuídos ao setting terapêutico, podemos compreendê-lo basicamente como um espaço onde acontecem as relações entre terapeuta e paciente, buscando promover um ambiente de escuta e acolhimento deste último de acordo com sua respectiva demanda.

Por essas e outras razões ele valoriza o cuidado com o indivíduo que procura por atendimento, além de funcionar como ambiente facilitador para que o terapeuta, no curso de sua atividade interpretativa, se guie pelas necessidades psicológicas do paciente e trabalhe em favor de um espaço potencial.

Uma vez que um espaço físico é compartilhado entre o terapeuta e o paciente, ele é concebido como um importante recurso na construção de vínculos consistentes e confiáveis entre as partes. Deve-se, no entanto, reconhecer a existência de situações especiais que, por seu grau de perturbação, exigem a alteração do setting por fatores internos ou externos.

O existir humano nunca é um objeto simplesmente dado em algum lugar, muito menos encapsulado em si mesmo. A existência significa apenas a abertura originária de sentido na qual podem vir à luz os entes enquanto tais.

Trata-se, portanto, de um espaço sujeito à readaptação em função das peculiaridades psicológicas de cada paciente, o que sugere que, não só as necessidades emocionais devam ser supridas, mas também aquelas que relativas ao ambiente.

O período de cada sessão foi estipulado por meio de parâmetros de análise aplicados ainda na época do psicanalista Sigmund Freud e posteriormente adotado por outras linhas de atendimento como tempo padrão, permanecendo como tal até os dias de hoje.

Compreende-se que o período proposto seja um espaço de tempo razoável para que as necessidades entre terapeuta e paciente sejam respectivamente satisfeitas e devidamente comportadas. Admite-se um desconto de 10 minutos para eventualidades, troca entre pacientes e recomposição psíquica e emocional do terapeuta.

Psicoterapia de base fenomenológico-existencial

A psicoterapia existencial surge em um contexto histórico de insatisfações constatadas nos resultados atribuídos ao método psicanalítico então proposto por Freud.

O psicanalista e filósofo estadunidense Rollo May, comumente associado à psicologia humanista apesar da influência de pensadores como Nietzsche e Kierkegaard, aponta que haveria dois principais pontos de divergência entre as correntes da psicanálise e o existencialismo:

1. Não é a criação de nenhum líder isolado, tendo se desenvolvido, espontaneamente, em diversas partes da Europa.

2. A psicoterapia existencial não se propõe a fazer acréscimo ou revisão da psicanálise, mas se apresenta como outra maneira de conceber e, portanto, de compreender clinicamente o ser humano.

Compreende-se que o cartesianismo seja, ainda hoje, a forma mais adequada de enxergar o ser humano, pois parte da premissa da separação entre sujeito e objeto, o que os faz pensar em uma consciência (ou essência) separada do corpo.

O que falta é o conceito de contato, dentro do qual, e somente dentro do qual, a transferência tem significado genuíno. A transferência deve ser entendida como a distorção do contato

Em sua análise da existência humana, o filósofo alemão Martin Heidegger, pensador de grande influência no existencialismo e percussor da daseinsanalyse, afirma que “O existir humano nunca é um objeto simplesmente dado em algum lugar, muito menos encapsulado em si mesmo. A existência significa apenas a abertura originária de sentido na qual podem vir à luz os entes enquanto tais”1.

Com base neste quadro, surge a psicoterapia de base existencial, que tem como principal preocupação o acesso à realidade existencial do paciente considerando que outras teorias realizavam de forma satisfatória o trabalho de dizer quais eram suas realidades essenciais, realizando incansáveis tentativas de encaixar o paciente dentro de seu modelo teórico.

Presença no momento

A psicoterapia existencial ancora sua visão no plano do aqui-agora, sendo melhor definida através da relação: “ser-no-mundo-com-o-outro”, desconsiderando, portanto, qualquer interpretação pré-estabelecida acerca da realidade do paciente. Pelo contrário, o psicoterapeuta, com base no referencial existencial, procura fazer com que o indivíduo reconheça seus aspectos impessoais e questione-se, para buscar suas próprias respostas para as situações que se apresentem ao longo da vida.

Em seus estudos May define o encontro como “a expressão do ser”2 e propõe uma diferenciação quanto à relação transferencial, deslocamento do sentido dado a pessoas do passado para pessoas do nosso presente, proposta por Freud e a relação de encontro promovida pela psicologia existencial: “O que falta é o conceito de contato, dentro do qual, e somente dentro do qual, a transferência tem significado genuíno. A transferência deve ser entendida como a distorção do contato” 3.

Desta forma, defende que a relação de transferência não prioriza o contato, mas sim o aspecto individual da fantasia de um sujeito em relação ao outro, o que sugere muito mais um movimento solista, do que uma relação propriamente dita. Traz que sua prioridade esteja na projeção de fantasias disseminadas em algum momento da infância do indivíduo, com foco na repetição desses padrões durante o processo terapêutico.

Com base nestes pressupostos, podemos concluir que a principal diferenciação entre o método existencial e as outras formas de abordagem é o “encontro”, uma vez que no primeiro, é visto como abertura na qual o paciente afeta ao mesmo tempo em que é afetado, distanciando-se assim da mera concepção de “representação” então valorizadas por diversas correntes, como no caso da psicanálise.


Referências

1. Heidegger, M. Ser e tempo, Vol. 1. Petrópolis: Vozes, 1989.

2. May, R. Psicoterapia existencial. Porto Alegre: Globo, 1976.

3. ______. A descoberta do ser. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.