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Paz em cada passo

É possível meditar caminhando, uma vez que meditação significa estar atento

SadahamYathra / Pixabay / CC0 Creative Commons

A fisiologia humana é especificamente adaptada para caminhar por longos períodos. Enquanto outras espécies se especializaram em correr, escalar, subir árvores ou nadar, nós humanos somos geneticamente programados para caminhar, pé ante pé, por léguas sem nos cansarmos. É a atividade mais natural que fazemos além de respirar. E assim, não é nenhuma surpresa que os sábios do oriente tomem essa atividade como um potencial auxílio na meditação.

Meditar, que vem do grego medesthai e significa estar atento, é uma prática cujas origens são obscuras. Mas foi na Índia Védica que ela se tornou difundida como ferramenta de autoconhecimento, equilíbrio e harmonia. Lá era chamada de dharana, sustentar, ou manter o foco da mente em uma ideia exata.

Os indianos yogues meditavam sentados, cruzando em flor de lótus as pernas finas resultantes de muitos jejuns. Parte da facilidade que eles tinham para permanecer imóveis por longos períodos vem da prática de posturas físicas da Hatha Yoga.

Foram os budistas que aperfeiçoaram a meditação caminhando. Ela é chamada kinhin. Em sua forma mais tradicional, cada passo é dado após cada respiração, o que resulta naturalmente em um caminhar lento, introspectivo — e meditativo. As mãos devem ser guardadas uma na outra, a direita em punho fechado e a esquerda a envolvendo.

Na kinhin, passo a passo, a pessoa vai deixando os pensamentos para trás. O caminho é a única coisa que tem importância; o caminhante, lentamente, se une ao caminho.

A preparação

Caminhar é simples e natural (e essa é a força desse tipo de meditação). Mas, antes da prática, é necessário observar alguns cuidados que ajudam a mente a permanecer vazia durante a meditação.

O caminho a ser trilhado deve ser simples, definido antes e sem escolhas que surjam durante o trajeto – para que decisões sobre esquerda ou direita não tragam a consciência do meditador de volta à vibração mais concreta. Caminhar em um círculo muito fechado é desaconselhável.

Os pés devem vestir sapatos confortáveis. Por último, o meditador deve ter certeza que ele poderá cumprir o trajeto sem se preocupar com o tempo ou olhar no relógio. É melhor escolher um trajeto curto do que experimentar ansiedade durante o caminho.

Passo a passo

Meditar andando é uma excelente técnica para quando estamos tensos, ansiosos, ou com dificuldade de controlar a mente.

O início do trajeto é o momento em que afirmamos a intenção do que vamos realizar. Em geral, a prática do kinhin tem como objetivo acalmar a mente, aprofundar a respiração, desenlaçar a consciência de problemas e chegar ao fim do caminho carregando apenas a si mesmo, deixando conflitos e inquietações para trás.

Mesmo que seu objetivo seja sempre este, é importante defini-lo e reafirmá-lo no início da meditação, para que o subconsciente coopere.

A meditação começa. Andamos com a atenção focada no corpo no início, observando o balanço do equilíbrio a cada passada, o movimento para os lados e o impulso da propulsão para a frente.

O meditador vai criando uma conexão com o próprio corpo. A prática de andar, que em geral é excessivamente automática, passa a ser acompanhada pela consciência de quem medita. A mente acompanha o corpo e se une a ele.

Em um grupo, será natural o caminhar lento característico da prática tradicional; mas se você estiver caminhando sozinho, é aconselhável permitir-se, por uns momentos, andar como sentir vontade. Observando os resultados, você poderá perceber muito do seu estado mental: os passos

são apressados? Largos? Há pressa e inquietação? Os seus pés serão fiéis intérpretes da mente, registrando onde está a sua consciência.

O ritmo é profundamente importante para a meditação caminhando. Os passos lentos são um objetivo que reflete a busca por uma mente serena, livre e absorta em si mesma. Mas isso não é o objetivo principal e sim um reflexo: o mais importante é a concentração. É na mente, e não nos pés, que reside o trabalho da meditação.

Depois de observar e ajustar o seu ritmo, o meditador se foca no mecanismo de seu caminhar. Os músculos e a respiração prendem a sua atenção. As sensações, que são muitas, servem como âncoras para manter o meditador no momento presente. Há incontáveis informações que o corpo envia à nossa percepção que passam despercebidas na vida comum. Na meditação, cada

sensação dos pés é observada, cada respiração, cada músculo tensionado e o seu relaxar, ou o peso que se alterna de uma perna a outra. O som dos passos é absorvido pela mente, que não julga ou pensa, apenas observa, atenta.

No seu ritmo

A meditação caminhando não exige um ritmo excessivamente lento. No Japão, monges caminham a passos lentíssimos pelas ruas, mas o controle necessário, para que pensamentos diversos não invadam a mente entre um passo e outro, torna esse tipo de meditação um estágio mais avançado.

Quem medita andando deve se focar no andar e deixar tudo o mais fora da mente. Se emoções fortes vêm e atraem a atenção, a instrução é deixar que a emoção passe e se vá, como um animal que cruza o caminho. Às vezes, essa prática proporciona purificação emocional.

A meditação caminhando pode se estender, se necessário, à observação dos arredores e do caminho, como olhar as flores e as árvores ao redor. Esta é uma técnica útil, que inspira e alegra, mas que requer mais disciplina do que o simples caminhar, pois o pensamento pode mais facilmente escapar quando não está apenas focado no ato de andar.

O foco principal da meditação caminhando é estar presente. A atenção deve estar completamente no momento, desligada de tudo o que não é o meditador e o seu caminho. Isso tem o poder de ajudar o meditador a libertar-se de preocupações ou pensamentos que exigiam a sua atenção mesmo fora de hora, finalmente deixando-os de lado.

A prática da meditação caminhando pode ser feita em vários momentos do dia. Algumas pessoas escolhem situações comuns para meditar, como a caminhada até o carro estacionado, ou ao redor do quarteirão.

Técnicas avançadas

O monge budista Thich Nhat Han sugere a prática de metta bhavana durante a meditação caminhando1.

Andando confortável e serenamente, o meditador busca em si mesmo a compaixão, o amor e a alegria. O objetivo não é apenas sentir isso, mas imprimir, com cada passo, essa alegria no chão onde pisa e levar isso aos arredores por onde caminha.

Ao focar apenas nesses sentimentos, sugere Thich Nhat Han, o meditador invoca parte de sua Buddha-dhatu, ou natureza de Buda, e traz à tona o que existe de melhor em si mesmo, afastando tristezas e estados de confusão mental. O caminhante deve sentir-se, gradualmente, como a pessoa mais alegre e leve do mundo todo, transbordado de compaixão e tendo o cuidado de transferir isso a cada local que pisa ou objeto que toca.

Etapas seguintes

Meditação caminhando pode ser um complemento à meditação sentada, e assim é usada nos monastérios Zen. Mas é também uma prática excelente para iniciantes.

Estados iluminados de consciência, chamados de satori ou kenshô no budismo e samadhi no hinduísmo, podem ser alcançados também através da prática da meditação caminhando. Mas, para a maioria dos mestres e adeptos, a meditação caminhando é um complemento à meditação sentada, uma extensão natural do estado da mente que alcançaram ao mergulhar no profundo silêncio e na quietude de si mesmos.

Foto: KX Studio / Flickr: KX Studio / CC by 2.0

Referências

1. Plum Village. Disponível em: <http://plumvillage.org/>. Acesso em: 26 nov. 2013.