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A passagem do mito à razão

Os gregos foram os primeiros que tentaram explicar os fenômenos naturais sem utilizar mitos

Flickr: Brian Hillegas / CC BY 2.0

Todo texto é um pretexto e um objeto mágico do qual o olho do leitor pode fazer surgir um mundo. A filosofia, ao contrário do que se pensa, não trata obrigatoriamente de assuntos difíceis, complicados. Afinal, foi ela que moldou o perfil ocidental de ser e entender o mundo.

A lista de descobertas e invenções práticas oriundas da Grécia Antiga é extensa. Ela vai da concepção esférica da Terra no centro e as estrelas no ponto mais afastado, ao sistema de circulação do sangue no corpo e previsão de eclipses.

O nascimento da filosofia

O ser humano sempre sentiu necessidade de entender o mundo e suas manifestações. Se, até determinado momento, o mito era a explicação suficiente, o a evolução natural passou a não mais responder aos anseios de entendimento do homem. Como se deu essa passagem? Na Grécia Antiga, a explicação religiosa de mundo (por nós chamada de mito) declina quando os primeiros sábios põem em discussão a ordem humana e a traduzem em fórmulas acessíveis à inteligência dos homens. Mas por que e como isso acontece?

Mito é o conjunto de explicações reunidas em narrativas que buscam dar um sentido à realidade. Hoje parece fácil, mas há cerca de 30 séculos, entender o que está por trás dos fenômenos meteorológicos, por exemplo, não era nada óbvio. O mito é sempre uma explicação simbólica em todos os povos. O mito grego tem uma especificidade: possui alegorias inteligentes e razoáveis.

A função da religião

De acordo com o filósofo inglês Bertrand Russel, no caso das outras civilizações ancestrais, “a função da religião não conduziu ao exercício da aventura intelectual” e por isso só a grega fez escola. Nelas imperava uma grande preocupação com a vida após a morte. Esse é um dos ingredientes da especificidade grega: ela não é mística e isso parece ter favorecido o aparecimento do pensamento inquisitivo, ou seja, a filosofia.

Ela não tem dogma, textos sagrados nem devoção. “As práticas religiosas dos gregos eram, em geral, ligadas aos costumes estabelecidos nas várias cidades-estados”, continua o filósofo. A religião grega é, na verdade, política. Isso equivale a dizer que o que mantinha as pessoas unidas eram seus interesses comuns, com um arcabouço de alegorias que simbolizava determinados valores. Isso é completamente diferente de uma religião na qual o que une as pessoas é uma crença compartilhada e não os costumes estabelecidos, principalmente se essa crença tiver a pretensão de ser estatuto de verdade.

Nova interpretação

Um significativo número de elementos já está presente no mito e no espírito do homem pré-filosófico. A religião grega foi uma preparação para o pensamento racional que incorporou muitos deles. Já existia no discurso mítico a relação de pares opostos a se misturar e gerar novas formas de vida, como o céu quente e brilhante, a terra seca e o mar úmido etc. O que muda é a abordagem e a forma que o discurso assume. Como o pensamento racional resume-se à desmistificação, ele só deseja mostrar a tranquilizadora banalidade dos fenômenos.

Um dos aspectos que fazem a mitologia grega ser especial é que seus deuses são antropomórficos e movidos por paixões. Não são nem monstruosos, nem vagos espíritos. Até porque no pensamento grego, o mundo é que cria os deuses e não o contrário. Essa é a razão pela qual suas histórias têm papel garantido até hoje no imaginário ocidental e são nossa base cultural.

À imagem e semelhança do humano

O pensamento racional é espelho da atitude de um povo que fez a travessia de doze séculos de transição entre a vida com a figura central do monarca e uma sociedade que precisava cuidar de si mesma. Com o desaparecimento dessa entidade considerada divina, os homens tomaram consciência de um presente separado do passado e diferente dele. O homem sabe que esse tempo não voltará. Entende também que está sozinho e que terá de encontrar as próprias soluções e saídas. A filosofia nascente é uma primeira forma de sabedoria humana.

A interpretação astrológica do mundo e a resolução de problemas passam a ser colocadas em novos termos. Como o rei já não centraliza todos os poderes, a fragmentação das funções na cidade gera problemas de equilíbrio. Não existe hoje a figura que denominamos social e que encarna todas as virtudes. As atividades humanas que se opunham e eram integradas pela figura do soberano perderam essa unidade que as representa. Será preciso encontrar outra e descobrir o que permanece, apesar de todas as mudanças (o princípio regulador). Como é possível aparecer algo tão novo e tão transformador? Qual é o motivo do corte? A resposta é simples: não houve um corte abrupto.

Política

Se a emergência da filosofia ocorre seis séculos antes de nossa era, o processo que permitiu essa eclosão é muito mais antigo e culmina no momento em que os gregos assumem que o Olimpo não vai resolver seus problemas, pois a vida política é assunto humano. Platão, por exemplo, em seus “Diálogos”, recorre muitas vezes a mitos que ele mesmo cria. Sintoma de sua época, a preocupação de Platão na “República” é discutir qual o melhor regime a ser instaurado na polis.

República é a expressão latina que corresponde à politeia, do mundo grego. Platão nos dirá que não adianta discutir o regime sem antes investigar a natureza humana para saber qual é o mais adequado. Fica claro então que a herança mitológica não foi desperdiçada, pois os deuses representam justamente a natureza humana. Antropomórficos, são movidos pelas mesmas paixões que nos animam, como raiva, ciúme, amor, amizade, curiosidade e doçura.

Sistema de valores

Durante esse processo de transição e de crise, houve uma discussão do sistema de valores, com decorrentes reformas no domínio do direito, da política, da ética e dos costumes. Muitos conceitos se mantiveram até hoje: equilíbrio, medida, excesso, recusa da tirania, ordem, igualdade e reciprocidade. Talvez alguém se pergunte como e por que emergem valores relevantes em um agrupamento humano específico. Será que algum deus brincalhão decidiu que assim seria e privilegiaria esse povo? Parece improvável. O que os registros históricos nos mostram é que a vida se faz pouco a pouco, nos detalhes.

Foi no rastro da recusa racional de que os deuses pudessem determinar os destinos humanos que os gregos promoveram um momento histórico que deixou frutos. Essa herança incorpora o passado do mito, presente num edifício espiritual no qual as crenças simbolizam valores e explicam a relação e a inserção do ser humano na natureza e, ao mesmo tempo, na esfera comum, em que é cidadão. Somos todos iguais por natureza e a diferença se fará na polis. O homem é um animal político por natureza. É no domínio do humano que a verdadeira natureza humana floresce.

Sócrates e a herança trágica

O que chamamos de passagem do mito à razão é a construção progressiva da pessoa. Se os gregos discutiram seus valores, se fizeram essa reflexão de caráter laico ao deixar os deuses na soleira, não significa que os desprezaram. É importante observar que o discurso que procura dar sentido ao mundo em que vivemos não surge no pensamento racional, mas, sim, no mito. Como também é nele em que a tríade harmonia-justeza-medida, tão cara ao pensamento ocidental, figura pela primeira vez. Ao humano cabe o efêmero, ele é mortal e a isso deve se conformar, pois, do contrário, incorrerá em faltas graves: o descomedimento (hybris), a falta de moderação e a temperança (sophrosyne). Um exemplo interessante da transição do mito à razão tem Sócrates como protagonista. Exatamente como numa tragédia, o protagonista ocupa o lugar de destaque. Quanto ao pano de fundo, é o universo do mito.

A trama é a luta muda que se instaura entre a polis conservadora e a filosofia nascente, simbolizada e levada até o fim pela morte de Sócrates, que tem consciência do momento trágico que vive, recusa o ostracismo e escolhe morrer em nome do que defende. O trágico não tem solução e é destinado ao heroísmo, pois a posteridade cabe ao guerreiro que se destaca. Sócrates é coerente. Tal postura confirma a dupla acusação de corromper a juventude e desrespeitar os deuses que lhe é feita por Atenas em certa medida ainda respaldada no mito e em seus deuses ao recusar a nova discussão laica. O debate entre luz e sombra, entre o que sempre foi e o que será, Sócrates reafirma, desnuda com seu gesto extremo de decidir tomar a cicuta. Dali em diante, Zeus, o poderoso, e com ele todo o Olimpo, passam a ter outro papel. A filosofia os deixa para sempre na soleira da porta.