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Os desafios da acupuntura no Ocidente

Cada vez mais a prática tem se apropriado dos conceitos e tecnologias sem perder suas raízes

Marnie Joyce / Flickr / CC BY 2.0

A acupuntura é uma técnica da medicina tradicional chinesa já reconhecida pelos sistemas de saúde

A acupuntura é um dos tratamentos terapêuticos mais antigos da humanidade. Os registros de práticas semelhantes, como a aplicação de pedras redondas (bian), datam de 5.000 a.C na região de Hunan, na China. A aplicação de agulhas em pontos específicos surge durante a dinastia Shang (1.766-1.123 a.C.). Muito desse conteúdo era passado de forma oral. O desenvolvimento da imprensa contribuiu para a disseminação e ampliação das técnicas, que chegaram até os dias atuais sem grandes modificações.

Juntamente com outras técnicas, como moxabustão, auriculoterapia, fitoterapia, tuiná, tai chi chuan, lian gong, chi kung, a acupuntura faz parte da medicina tradicional chinesa (MTC). Seu objetivo é distribuir harmonicamente a energia vital qi entre os meridianos pela estimulação de pontos no corpo (massagem e acupuntura), no pavilhão auricular (auriculoterapia), nos pés (reflexologia podal) e nas mãos. Todas as técnicas são desenvolvidas com base no princípio da inter-relação entre corpo e ambiente e nas relações intrínsecas entre microcosmo e universo, permeado pela mesma energia qi.

Fundamentos

O conceito de que o corpo possui um princípio inerente de auto cura e autorregeneração é fundamental na acupuntura. A inserção de agulhas em partes específicas auxilia o processo de realinhamento e redirecionamento da energia, que é distribuída pelos canais e meridianos. Esses últimos são como avenidas que unem as diferentes partes de uma cidade ao relacionar o “sul ao norte” e a “periferia ao centro” em uma rede intrincada de órgãos, aspectos emocionais, físicos e imateriais.

As bases da acupuntura e da MTC diferem dos princípios em que a medicina ocidental se desenvolveu. Na concepção chinesa de saúde, a doença não advém de um agente intruso, mas é a consequência de um conjunto de causas que resultam em desarmonia e desequilíbrio. O papel da MTC é promover a melhor adaptação possível do indivíduo ao meio que o cerca pela participação consciente no processo de manutenção e responsabilidade sobre sua própria saúde1.

Flexibilidade

Durante muitos anos, a ciência ocidental ignorou as descrições de componentes energéticos fisiológicos, uma vez que não podiam ser documentados. Contudo, já existem hoje meios para confirmar a existência da energia sutil. Os estudos de Nguyen2 são uma importante reflexão sobre a “ocidentalização” da MTC com base em uma tendência de reduzir a arte da acupuntura a receitas rígidas e reconhecer as diferenças fundamentais não somente de caminhos filosóficos, mas de estruturação do pensamento entre os ocidentais e orientais.

Acunputurista aplicando agulhas na mão de um pacienteOs trabalhos de pesquisa insistem em mostrar a eficácia dos pontos, mas não representam a substância verdadeira da acupuntura por negligenciarem a perspectiva holística desta terapia. A tendência é o desaparecimento gradual da capacidade de raciocinar e pensar como um médico chinês em benefício de uma prática que se quer científica e fundamentada em provas e publicações. Para Nguyen, “a MTC tem de se modernizar, mas nem por isto precisa se ocidentalizar”.

Há, portanto, um paradoxo. Como é possível elevar a acupuntura a um status de técnica cientificamente comprovável e aceita pelos profissionais de saúde ocidentais sem destituí-la da essência e preceitos que a regem? Nesse processo de recepção da acupuntura pelo Ocidente, é fundamental ressaltar que atualmente há um conjunto de técnicas relacionadas a ela que não necessariamente se baseiam nos fundamentos filosóficos da antiga prática chinesa.

A prática de acupuntura pode se referir, no mínimo, a quatro terapias com diferentes bases teóricas: a acupuntura clássica, a científica ou médica, a fundamentada em pontos gatilho e a de estimulação elétrica3. A acupuntura e a medicina chinesa clássica estão estruturadas nas bases filosóficas da medicina antiga e nos conceitos de yin-yang, cinco elementos, zang fu e outros princípios energéticos para a realização de diagnósticos. Estes são realizados por sinais observáveis e sintomas relatados, como a palpação do pulso radial e análise da língua (formato, cor, movimento, aspecto do revestimento etc)4.

Tais métodos têm sido considerados “ingênuos”, “antiquados” ou “irracionais” e rejeitados pelos médicos em favor de uma acupuntura com leitura científica e ocidentalizada, cujos princípios são os da imunologia, da neuroanatomia, da neurologia e outras áreas. A leitura científica da acupuntura fundamenta-se no diagnóstico da doença por meio de fármacos e pontos de acupuntura pré-selecionados para cada doença em que a avaliação depende da mensuração objetiva de dados que são colhidos por instrumentos de alta tecnologia5.

Amplitude

Para a acupuntura clássica, os elementos cosmológicos desempenham um papel importante na determinação das constituições individuais, enquanto para a racionalidade ocidental, sequer são considerados. O objeto de estudo é, para a ciência médica, a doença, sua identificação, sua etiologia e sua classificação. A medicina chinesa contempla o sujeito e suas constituições individuais no processo de classificação das doenças.

Ao considerarmos tais dicotomias, reconhece-se um grande desafio: construir pontes de troca de conhecimento para relacionar as práticas ocidentais e orientais de forma dinâmica e complementar. A ideia é construir um paradigma que considere o ser humano de forma global, como um caminho intermediário entre polaridades opostas, à semelhança dos preceitos taoístas na prática harmonizadora do caminho do meio6.

Foto 2: Vivian Chen / Flickr


Referências

1. CAPRA, F. O ponto de mutação. 24. ed. São Paulo: Cultrix; 2004. p. 299-350.

2. NGUYEN, C. R. Nada de cume, sem raiz: acupuntura do ano 2000. Rev. Paul. Acupunt., São Paulo, v. 3, n. 2, p. 55-6.1997.

3. GUNN, C. C. Acupuntura dentro do contexto. In: FILSHIE, J.; WHITE, A. Acupuntura médica: em enfoque científico do ponto de vista ocidental. São Paulo: Roca; 2002. p.11-7.

4. MACIOCIA, G. Os fundamentos da medicina chinesa: um texto abrangente para acupunturistas e fitoterapeutas. 2. ed. São Paulo: Roca, 2007.

5. SOUZA, E. F. A. A. Nutrindo a vitalidade: questões contemporâneas sobre a racionalidade médica chinesa e seu desenvolvimento histórico cultural [tese]. Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, 2008.

6. KUREBAYASHI, L. F. S. Acupuntura multiprofissional: aspectos éticos e legais. São Paulo: Yendis; 2011.