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O luto como processo de transição

Como trabalhar perdas significativas na nossa vida e enfrentar problemas como depressão e melancolia

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O temor à morte no ser humano aparece de modo particular em cada um e é ligado à noção de desconhecido

Não é difícil conceber que para muitas pessoas falar sobre o luto ou simplesmente entrar em contato com situações que nos remetam à sensação de finitude possa ser um tabu.

Isso ocorre quando lidamos com a perda de um ente querido ou de uma pessoa que fazia parte do nosso ciclo comum. Nesse momento, somos convidados a nos deslocar de uma posição de onipotência e admitir, ainda que por um breve momento, a possibilidade de deixar de existir.

O temor à morte é característica inerente a todos os seres vivos, mas, especificamente no ser humano, aparece fortemente ligado à noção de desconhecido, podendo ser significado de modo particular por cada um.

Seria um erro, no entanto, tentar reduzir tal questão a conteúdos de caráter puramente psicológico, considerando o homem como sujeito histórico e social que é influenciado também por fatores de ordem externa.

Medos Culturais

Pelo mesmo motivo os significados atribuídos à morte mudam de uma cultura para outra, estando quase sempre respaldados em uma crença religiosa, como no exemplo do cristianismo. Nesse caso, assim como para os mulçumanos, a morte não é vista meramente como o fim da vida carnal, mas, sobretudo, como uma transição para um plano espiritual mais elevado.

Não entrarei no mérito da religiosidade propriamente dita, quero apenas destacar como uma filosofia de vida (seja ela qual for) pode ter influência direta no processo de elaboração do luto, como se fosse uma espécie de “ego auxiliar” ao indivíduo.

O funeral é, portanto, de extrema relevância social, pois permite que se estabeleça um elo saudável entre razão e emoção, desempenhando a importante função de amenizar o sofrimento, na medida em que o mesmo é compartilhado.

Para outras pessoas é ainda possível encontrar conforto no simples efeito propiciado pela cerimônia como um todo, se compreendida como uma forma de prestar homenagem àquele que partiu ou ainda como gesto de respeito.

O que levam de nós

Algumas linhas de raciocínio enxergam o luto como uma reação “egocêntrica” necessária ao indivíduo. Ele é processo pelo qual buscamos reestabelecer nossas faculdades frente a uma situação de fragilidade emocional.

Dessa forma, o que se tem nada mais é do que uma tentativa de autopreservação do aparelho psíquico, visto que na morte do outro perdemos não somente o ente querido, mas tudo aquilo que este mantinha a nosso respeito. Em outras palavras, perdemos um pouco de nós mesmos.

No que diz respeito à contribuição psicológica, podemos pensar no ritual como um evento que favorece a promoção de dispositivos de enfrentamento, permitindo ao sujeito um posicionamento mais otimista, evitando fantasias que sugiram a negação do fato em si, muito comum às pessoas mais próximas que não puderam se apropriar da perda de modo mais realista.

Consequências da perda

A depressão em certo grau é uma resposta natural e até mesmo esperada em alguns casos, sendo passível de identificação por um conjunto de sintomas, entre eles, falta de apetite, negligência quanto à higiene, baixo investimento em atividades do cotidiano, desinteresse constante e em alguns casos, até mesmo déficit de atenção.

Assim como todo diagnóstico, esse tipo de caso deve ser acompanhado por um especialista e interceptado conforme necessário, buscando evitar uma progressão do quadro.

Diferente da depressão, os casos de melancolia tendem a ser mais raros em uma situação de luto e não necessariamente apresentam os típicos sintomas da ausência de cuidados pessoais, estando muito mais atrelados à projeção de conteúdos internos do indivíduo, sendo algumas vezes manifestos através de sentimento de mágoa, rancor e irritabilidade em decorrência de uma frustração em potencial.    

Podemos nos ater ao conceito de morte a partir de um olhar antropológico, considerando o tema em suas diferentes conotações. No filme Troia, baseado na obra Ilíada, de Homero, Achilles declara durante um de seus diálogos com Briseis que “os Deuses nos invejam por sermos mortais”. Quer com isso dizer que a beleza do viver persiste não na mera apreciação das coisas por sua durabilidade, mas justamente no fato de serem todas elas finitas, o que as tornaria inigualáveis. Essa talvez seja uma alternativa para driblarmos os elementos que induzem a uma noção pejorativa da morte, geralmente associada a figuras diabólicas ou cenários característicos de trevas e submundo.

Outras perspectivas

Em algumas regiões asiáticas, mais precisamente para os adeptos da filosofia budista e hinduísta, a crença no plano pós-morte está intrinsecamente ligada à ideia de reencarnação, sendo regida por uma lei natural de causa e efeito, subindo ou descendo em uma escala na medida em que nos libertamos de nosso carma — crença segundo a qual todas as ações, sejam elas boas ou más, geram reações correspondentes. A morte é ainda apreciada com muita alegria e serenidade, sem que para tanto adquira o efeito fúnebre presente nos ritos da cultura ocidental, podendo ser celebrada com grandes festas, banquetes e danças.

Distanciando-se um pouco mais, temos também o seppuku, ou harakiri: o termo japonês que faz alusão a um antigo ritual suicida adotado pelos samurais e significa literalmente "cortar a barriga".

O ato consiste em uma tentativa de redenção por parte do samurai que tenha caído em desonra para seu povo ou para consigo mesmo, como no exemplo da derrota por um clã rival. Nesse caso o samurai acredita piamente que a morte possa lhe ser mais vigorosa do que uma vida com poucas aspirações, onde sua oferta de trabalho não teria valor para nenhum senhor.

Há povos que cultuam a morte em luto, partilhando um profundo sentimento de condolência e respeito; outros, se regozijam, celebrando-a com grandes festas dignas de banquetes e danças. Fato é que, assim como não se pode explicar a vida sem que nos utilizemos dos elementos que ora se encontram nesta mesma vida, talvez a morte, para ser compreendida, deva ser vista da mesma forma. Enfrentá-la significa encarar a perda e o luto. Ela nos coloca em contato com o fato inexorável ao qual todos estamos destinados. É uma experiência difícil sem dúvida, mas que também pode ser enriquecedora. Superar o luto nos torna mais maduros e nos ajuda a perceber a importância das pessoas amadas em nossas vidas.


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