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Filosofia e a física moderna

A confirmação da existência do bóson de Higgs aproximou o diálogo entre ciência e o pensamento dos pré-socráticos

CERN

A física de partículas tenta hoje responder o questionamento que o filósofos fizeram há 5.000 anos

Há alguns séculos, na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, a atividade científica se emancipou do pensamento filosófico, adquirindo autonomia e desenvolvimento próprio. A experimentação e a quantificação dos fenômenos naturais foram procedimentos fundamentais para sustentar a maioridade da ciência perante a filosofia.

Uma descoberta científica do início do século XXI parece contrariar essa independência, gerando interpretações equivocadas sobre a relação entre filosofia e ciência e apontando para uma suposta reconciliação entre a reflexão filosófica e a atividade científica. Para superarmos esse equívoco, vamos recuperar essa descoberta científica e traçar um paralelo entre ela e o período da história da filosofia que supostamente mais se aproxima dessa questão.

Física de partículas

Entre 2012 e 2013, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, mais conhecida como CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire, atualmente Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire), maior laboratório de física de partículas do mundo, confirmou provisoriamente a existência do bóson de Higgs. Sua existência havia sido teorizada em 1964 por um grupo de seis cientistas, mas a comprovação só pode ser realizada décadas depois com a construção do Grande Colisor de Hádrons, sediado no CERN.

O bóson é um dos componentes do modelo padrão, teoria da física de partículas que descreve as forças (com exceção da gravidade) e as partículas fundamentais do universo. Uma das mais importantes é o bóson de Higgs, partícula subatômica que, associada ao campo de Higgs, transfere massa a outras partículas fundamentais de matéria. Ele, portanto, não é importante por ser a própria matéria, mas por atribuir massa à ela.

Antes de Sócrates

As questões levantadas pela filosofia pré-socrática supostamente são aquelas que mais se aproximam das conclusões alcançadas com a descoberta da partícula de Higgs. Vamos recuperar esse período da história da filosofia para, então, traçar um paralelo com essa descoberta científica. Tradicionalmente, consideramos que a filosofia surgiu na Grécia com Tales de Mileto (séc. 7 a.C.- séc. 6 a.C).

Apesar de sabermos pouco sobre ele, uma célebre frase o deixou muito famoso: “a água é o princípio de todas as coisas”. Tales de Mileto estava interessado em investigar a physis, palavra grega frequentemente traduzida para o português por “natureza”. Por esse motivo, ele e os demais filósofos pré-socráticos também são conhecidos como filósofos da natureza. Essa expressão não está incorreta se interpretarmos o sentido que a palavra physis tinha para os gregos.

O que é a natureza?

Para compreender o conceito, é necessário estabelecer uma distinção muito clara entre a natureza tal qual a concebemos e a physis. Enxergamos a natureza como o conjunto de fenômenos que podem ser experimentados pelo ser humano. A reprodução dos animais, a fotossíntese das plantas e a evaporação da água são alguns fenômenos naturais que podem ser percebidos e vivenciados pelo ser humano.

Já a physis, investigada pelos pré-socráticos, não tem relação com esse conceito de natureza. Tales de Mileto, na verdade, não afirmou que a água que ingerimos ou que utilizamos para mover as pás da turbina de uma usina hidrelétrica seja o princípio de todas as coisas. O sentido da palavra physis, principal objeto de investigação dos pré-socráticos, está mais próximo ao de outra palavra grega: arché.

O princípio das coisas

A palavra arché pode ser traduzida como origem, princípio, o que é incriado ou o que não é gerado. A investigação da arché não é voltada para o primeiro evento que tenha precedido todos os outros subsequentes do cosmo, nem pesquisa aquilo que é primeiro na sucessão cronológica do tempo. Ela representa uma investigação do fundamento do cosmo, aquilo que sustenta todos os fenômenos em todas as épocas e lugares e que, consequentemente, não deriva de nenhum outro princípio.

Dessa forma, a água de Tales de Mileto, princípio de todas as coisas, não é algo que pode ser experimentado no mundo sensível. A água encontrada na natureza e todos os demais fenômenos do mundo são uma derivação da água (physis), que é também o princípio ou arché de todos os demais fenômenos da natureza.

Tudo ao mesmo tempo

Vimos que a physis, investigada pelos pré-socráticos, não se relaciona com a noção de natureza do mundo sensível. Ela é o próprio fundamento da natureza que conhecemos. Mas a complexidade do pensamento dos pré-socráticos não para por aí. A physis não é somente o princípio da natureza sensível, e sim de todo o cosmo, inclusive da alma e mesmo das divindades.

Ao contrário do pensamento dualista cartesiano, que estabelecia a dicotomia entre alma e matéria, os gregos pré-socráticos entendiam que a matéria sensível, a alma espiritual e o mundo divino possuíam o mesmo fundamento, ou seja, a mesma arché e a mesma physis.

Micro e macro

Depois de percorrermos essa breve jornada filosófica, podemos traçar um paralelo entre os pré-socráticos e a equipe de cientistas que contribuiu para a teorização e comprovação do modelo padrão da física de partículas e, especialmente, do bóson de Higgs. Tanto os pré-socráticos como os físicos investigaram e investigam um princípio, um fundamento que está de certo modo associado à natureza.

As diferenças entre essas investigações, no entanto, são enormes. Os pré-socráticos buscavam encontrar o princípio de todas as coisas, desde a matéria mais elementar até a constituição da própria divindade. O desenvolvimento e a conclusão a que chegavam estavam baseados na reflexão filosófica, em uma intuição racional.

Ciência para quê?

Já a equipe de físicos tinha consciência de que não encontraria o fundamento de todas as coisas. Não esperavam se defrontar com algum princípio espiritual ou divino, mas pura e simplesmente as partículas e os mecanismos que atribuíam massa à matéria. Toda pesquisa científica conta com certa dose de intuição, mas as elaboradas por essa equipe de físicos foram baseadas principalmente em exaustivos cálculos e experimentações.

As questões filosóficas, do presente ou do passado, ainda podem animar e inspirar o desenvolvimento das atividades científicas. A descoberta do bóson de Higgs e a descrição do modelo padrão parecem ressoar as palavras ditas e escritas pelos antigos filósofos gregos, particularmente daqueles que ficaram conhecidos como filósofos da natureza. Os pré-socráticos, entretanto, serão mal compreendidos se suas imagens forem associadas a de pesquisadores que levantaram problemas científicos impossíveis de serem respondidos em sua época. Eles, na verdade, trouxeram à luz questões filosóficas que impunham uma nova forma de compreender e de experimentar o próprio cosmo.


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