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As fantasias da indústria farmacêutica

A luta da naturologia para transformar pacientes em protagonistas de sua própria saúde

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A psicossomática e a psicoterapia compreenderam a ligação que existe entre processos mentais, sofrimento emocional e saúde física

Quando uma pessoa chega ao meu consultório, na maioria das vezes, traz consigo uma questão com a qual já convive há algum tempo. Seja ela física ou psíquica, se esse paciente já consultou outros profissionais, ele tem uma boa ideia da descrição do problema, das principais indicações e prescrições. Até mesmo já procurou na internet casos parecidos com o seu.

Normalmente, meus pacientes chegam com certa ansiedade, pois tenho em meu consultório uma concepção de testar algo novo. Muitos vêm pelo comentário e indicação de alguém sobre a diferença em se consultar um naturólogo e que alguma terapia complementar deve ajudar em razão de os medicamentos não surtirem mais efeito.

A resposta mais comum que recebo quando pergunto quais são os motivos que os levaram a procurar um naturólogo é que “mal não vai fazer”. Em muitos casos, estão sensíveis, fragilizados, vulneráveis e desejam proteção e segurança.

Ilusão e suporte

Faz parte da primeira consulta explicar as bases da naturologia e estabelecer os objetivos do tratamento. Mais importante ainda é lembrar que cada pessoa reage de forma diferente, que existem várias fases e que não há possibilidade de prever resultados com total acurácia. Isso significa enfrentar alguns mitos, como o da força propagandística industrial farmacêutica.

Esse setor é inegavelmente uma parte importante do cuidado com a saúde, especificamente no que se refere ao desenvolvimento de remédios e lançamentos no mercado. A estratégia mais substancial no meu consultório, contudo, passa por desmascarar a concepção no imaginário social a respeito dos medicamentos: a ideia de que a indústria farmacêutica está envolvida (inclusive financeiramente) em pesquisa básica e inovação tecnológica, ou seja, produção de compostos que transformam a ciência em saúde para o consumidor1.

Para Lefreve2, essa fantasia em torno do medicamento sempre existiu. O que muda na conjuntura atual, de consumismo ávido, é a necessidade de reedição dessa fantasia de manter o mercado funcionando o tempo todo.

Logo, há uma constante reiteração da fantasia atrelada ao signo do medicamento. Para alcançar tal proeza, conta-se com o apoio de algo sólido, confiável e presente para trazer progresso e bem-estar à humanidade: a ciência. Nesse sentido, Lefreve explica que ela “fornece o álibi para o exercício desta fantasia na medida em que, em no âmbito da racionalidade e da consciência, o indivíduo e a sociedade estão consumindo produtos da tecnologia científica”3.

Pessoal e intransferível

Não digo que a ciência não é importante; pelo contrário, ela é imprescindível. No entanto, quando uma pessoa se depara com uma situação em que combater os sintomas não é mais suficiente, ela constata que a saúde é mais do que a ausência de doenças. É algo muito maior e o tratamento muitas vezes contrapõe-se ao imediatismo e à velocidade característica da modernidade globalizada.

A medicina psicossomática e a psicoterapia compreenderam há muito tempo a estreita ligação entre processos mentais, sofrimento emocional e saúde física. Nesse escopo, a denominação agora do indivíduo na terapia é de interagente e não mais paciente (que remete à passividade) ou cliente (em uma visão mercadológica).

A relação proposta fundamenta-se na proatividade da pessoa que está em tratamento. Essa atitude estimula a autonomia, retira do terapeuta a responsabilidade com a saúde do indivíduo e delega a esse último relevante parcela na busca do desenvolvimento do seu potencial humano4.

A transição para a condição de paciente para interagente é um grande desafio. Transformar esse entendimento em atitude traz benefícios e aprendizado para a pessoa. Sair do comum, olhar-se e ter participação ativa em sua recuperação são ações que resultam em um relevante amadurecimento e crescimento. Contudo, isso pode se tornar muito difícil em algumas ocasiões, principalmente quando o indivíduo não está acostumado a dar prioridade para si.

Autocuidado com suporte

Outro fator importante é a confiança, pois o terapeuta é a pessoa que irá ajudar o interagente no tratamento e fazer que ele se sinta à vontade. A comunicação deve fluir livremente, com facilidade e respeito. Por ser um relacionamento de alta qualidade, o terapeuta necessita reconhecer os limites de sua qualificação e encaminhar a pessoa a outro profissional quando necessário.

Para acompanhar o interagente, utilizo os princípios de três pilares contidos no livro “A medicina da alma5”, de Norman Shealy e Dawson Church: energia, consciência e intenção.

Energia

O ser humano é um sistema de energia. As doenças, as indisposições, os sintomas devem ser respeitados, sendo guias valiosos para observar os desequilíbrios de energia e corrigi-los. Os sistemas de energia são matrizes de conexão: uma mudança em qualquer uma das partes modifica o todo, e uma mudança no todo altera a configuração das partes.

Consciência

O segundo pilar da medicina da alma é a consciência. Uma mudança em sua estrutura altera os sistemas de energia. A consciência é o primeiro lugar a ser alterado na busca pela cura, pois está implícita no universo. A consciência é nossa alma e responsável por nos ligar ao ambiente em que estamos e às pessoas.

Intenção

A intenção é o desejo que o corpo seja saudável. Esse campo contém possibilidades que estão completamente além dos limites do nosso conhecimento atual. Quando silenciamos nossa mente inquieta e harmonizamos nossa experiência para outras vibrações, temos acesso a essas possibilidades.

Cada um desses pilares é trabalhado com diversas terapias e fornecem uma estrutura que orienta o trabalho. Acredito que cada profissional encontra sua própria espinha dorsal na forma de trabalhar.

David Servan-Schreiber, que escreveu o livro “Anti-cancer: a new way of life”, afirmou que “não existe na natureza nenhuma regra fixa que se aplique igualmente a todos. A variação é a própria essência da natureza. [...] o tratamento deve ser focalizado menos nos sintomas físicos do que em seu impulso vital, é preciso orientar o cultivo do bem-estar, a chama sempre acesa no fundo de si”6.


Veja também:
Remédios: solução ou problema?
Ministério da Saúde ou da Doença?
O medicamento na visão antroposófica

Referências

1. CAMARGO Jr, K. R. Sobre palheiros, agulhas, doutores e o conhecimento médico: o estilo de pensamento dos clínicos. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.19, n. 4, p.1163-1174, 2003.

2. LEFÈVRE, F. Saúde, este obscuro objeto de desejo. Saude Soc., São Paulo, v. 6, n. 1, p. 3-9, 1997.

3. LEFÈVRE, F. A oferta e a procura de saúde através do medicamento: proposta de um campo de pesquisa. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 21, n. 1, p. 64-67, 1987.

4. CARMO, R. K.; COBO, G. A; HELLMANN, F. A relação de interagência sob a perspectiva da abordagem centrada na pessoa. Cadernos de Naturologia e terapias complementares. Palhoça, v. 1, n. 1, 2012.

5. SHEALY, N.; CHURCH, D. A medicina da alma. São Paulo: Cultrix, 2011.

6. SERVAN-SCHREIBER, D. Anticâncer: prevenir e vencer usando nossas defesas naturais. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.