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Cultivar a paciência é um ato de coragem

Relato sobre um fim de semana de imersão e aprendizado no Centro de Meditação Kadampa Brasil

sasint / Flickr / CC0 Creative Commons

O templo do Centro de Meditação Kadampa Brasil é o único dessa tradição na América Latina

Faz alguns meses que, por sugestão de um grande amigo (ou um quase guia espiritual), eu decidi que queria ir a um centro de meditação. A ideia me parecia uma maneira interessante de tentar alinhar pontos na minha vida que pareciam bagunçados demais e de ampliar minha consciência nas relações em que estava envolvida.

O local escolhido para a visita era o Centro de Meditação Kadampa Brasil. Esse seria o meu primeiro grande contato com o budismo kadampa e a prática da meditação. Na minha chegada, todas expectativas, formadas por visitas ao site e buscas de fotos na internet, se confirmaram. Era um dos lugares mais bonitos que eu tive a oportunidade de ver na vida.

Imagino que qualquer pessoa ao olhar uma foto do lugar também ficaria no mínimo curiosa para conhecer o templo, não só por sua estrutura impressionantemente bela e suntuosa, mas também pelo cenário que o envolve.

Localização

A pouco mais de 80 km da cidade de São Paulo (cerca de 40 minutos de carro), o centro de meditação fica no distrito de Jacaré, em Cabreúva, em um local tranquilo, de natureza densa e paisagem inspiradora. O cenário é tão poderoso que os ensinamentos ali oferecidos dificilmente seriam aproveitados da mesma forma em um templo no meio da cidade.

A proximidade de São Paulo e o local escolhido para a construção do templo (inaugurado em outubro de 2010), não são casuais. Um protocolo do Projeto Internacional de Templos, sediado em Londres, de onde sai o dinheiro para as edificações da nova tradição kadampa, tem entre seus critérios principais o seguinte: o terreno deve ser de fácil acesso por rodovias, aeroportos internacionais e próximo a grandes centros. Além disso, o protocolo aponta para a importância do lugar ser calmo e com condições suficientes para que haja conforto e comunicação via internet.

Em razão disso, o caminho até lá não foi nada difícil. Saí de São Paulo às 8h00 de ônibus e antes das 10h00 eu já estava esperando os portões do templo se abrirem para me acomodar em um chalé coletivo. A aula começou tranquilamente às 10h30. Tudo muito acessível.

A arte da paciência

Não coincidentemente, escolhi o curso “A arte da paciência” no chuvoso último fim de semana de maio. O evento fugia muito de todo o meu entendimento de curso e, apesar de ser dividido em três aulas com temas definidos, parecia mais um conjunto de preces guiadas.

O professor convidado era o monge Gen Kelsang Geden, que estava ali especialmente naquele fim de semana dando os ensinamentos. O professor responsável pelo centro de Cabreúva e ali residente, Gen Kelsang Tsultrim, estava ministrando um curso em Salvador, na Bahia, a convite do templo local.

Antes do começo da primeira parte do curso e após o choque inicial de ver a beleza do interior do templo, uma das voluntárias anunciava que na chegada do monge, em sinal de respeito à tradição, todos teríamos que nos levantar para recebê-lo.

Visão interna do templo Kadampa

A chegada dele foi acompanhada de um grande silêncio dos “alunos”, alguns sentados à moda tradicional, em cadeiras; outros, sobre almofadas no chão de maneira parecida à da pose da estátua de Buda Shakyamuni. Ao chegar e se sentar em um patamar superior ao nosso, ele se colocou a um patamar inferior ao retrato do guia espiritual da nova tradição kadampa, Geshee Kelsang Gyatso, e a dois degraus abaixo da imagem de Buda. Uma clara menção à hierarquia de sabedoria formada no budismo.

Depois de um sinal gentil com as mãos para que nos sentássemos, o professor Geden fez uma introdução sobre o que veríamos no curso e seguiu com uma proposta de meditação. Digo proposta porque meditar é uma ação que exige bastante treinamento. A ideia de esvaziar a cabeça por completo automaticamente já a torna mais cheia, daí toda a necessidade de concentração e prática constante. Confesso ter me esforçado muito, mas não considero que minha meditação tenha sido efetiva. Ficou a sensação inacabada e a vontade de tentar mais vezes.

A aula foi toda baseada no livro Como solucionar nossos problemas humanos, de autoria do monge Geshe Kelsang Gyatso, o mesmo que estava na foto um degrau acima do professor Genge.

O budismo e a raiva

O curso era sobre paciência, mas as aulas tratavam justamente do mal que sofremos e para o qual tanto a necessitamos: a raiva.

O tema era democrático e convidativo o bastante para qualquer um. Todo mundo já sentiu raiva por situações pelas quais não tinha controle. Também são comuns os casos nos quais acabamos nos arrependendo das coisas que dissemos ou fizemos quando estamos tomados pelo ódio.

A ideia de conseguir pelo menos controlar um sentimento negativo surgido de uma dificuldade soava como metade do problema resolvido.

Por meio da teoria do budismo kadampa e dos exemplos citados pelo monge professor, consegui me lembrar de muitas situaçõe nas quais eu não soube controlar a raiva ou agir com sabedoria. Desde recorrentes discussões em família, problemas com antigos relacionamentos e convivência entre amigos. Tudo foi muito esclarecedor.

Genden explica que, para os praticantes do budismo kadampa, a raiva é o resultado de uma mente doente, irrealista e destrutiva. Ela foca num objeto e o julga. Qualifica-o como insuportável, não-atrativo e tira todos os pontos positivos que ele tem. Ele acredita que ter consciência disso é uma forma de evitar impulsos, de recuperar-se mais rápido e de superar os sofrimentos produzidos por situações inevitáveis, por exemplo, uma doença. Segundo o monge, a aceitação paciente, mesmo que mal vista pela sociedade, é corajosa e não passiva, pois não aceita a imposição da raiva.

Templo Kadampa

De todos os aprendizados sobre paciência, um me marcou de forma especial. Todos temos mágoas de pesssoas e situações que nos fizeram sofrer. Tendemos a enxergá-los como coisas que nos fizeram mal e nos tornaram piores. Bom, descobri que há uma forma de não pensar assim, pelo menos em algumas situações.

O monge explicou que sofrimentos acontecem de fato. Porém, em alguns casos, se tivermos a intenção, podemos aprender muito com eles. Genden afirma que aqueles que são capazes desse exercício dificilmente vão sentir a mesma dor numa situação parecida no futuro.

Um exemplo usado na aula foi o do fim de um relacionamento em razão de uma traição. Sente-se o sofrimento, mas de certa forma o traidor dá ao outro a oportunidade de mudar, aprender e buscar algo melhor para a sua vida. Nesse caso, segundo o monge, esse malfeitor pode ser um benfeitor.

Os praticantes do budismo kadampa acreditam que sofrimentos nos colocam em situações que, mais cedo ou mais tarde, nos aconteceriam, por razão de nossas ações voluntárias ou involuntárias, dessa ou de vidas passadas. Segundo eles, esses são os nossos carmas negativos.

Arte budista no templo Kadampa

Como esse foi o meu primeiro contato com a doutrina budista kadampa, eu não saberia como explicar esse aprendizado em situações de violência extrema às quais todos estamos suscetíveis e que, absolutamente, não temos nenhuma culpa. Mas nesses exemplos de sofrimentos mais banais ou inevitáveis, como algumas perdas e doenças, entendi que esse ensinamento é bastante aplicável.

O relativismo dos sofrimentos também foi mencionado. Durante a aula, foi dado o seguinte exemplo: como um estagiário sedento por mostrar trabalho e um profissional conceituado e cansado reagem a um monte de tarefas a serem executadas. Um vê como oportunidade; outro, como abuso.

O otimismo e a compaixão nesses ensinamentos chegam a pontos muito superiores que eu costumaria sentir, ainda mais diante do contexto de mundo violento e irracional em que nós, principalmente mulheres, vivemos. Ainda assim, foi muito significativo saber que diminuir a raiva também depende de trabalhar a mente e não apenas escapar de situações controversas. A autonomia, nesse caso, é muito atraente.

Estrutura para os visitantes

Ao se inscrever em alguma atividade de estudo e escolher a opção de se hospedar, o visitante tem direito a refeições (vegetarianas como prega o budismo), que são servidas na cafeteria e feitas por voluntários. Yakisoba, caldo de feijão, arroz, tudo era feito sem exageros e de forma honesta para os hospedes. Para mim, não ficou a impressão de hotel, pousada, ou algo do tipo, mas, se possível, eu ficaria vivendo ali por mais muitos dias daquela forma.

No centro de meditação, além da possibilidade de fazer o curso de fim de semana, como eu fiz, também é possível fazer retiros nos feriados prolongados ou aulas às quartas-feiras. Além disso, o espaço oferece a possibilidade de simplesmente passear. A livraria, a loja e a cafeteria ficam abertos para qualquer visitante que queira conhecer o espaço do templo. Não há restrições, o visitante pode ser budista ou não budista. Aos domingos, é oferecida uma visita guiada de graça ao centro de meditação.

Existem também, na parte externa, três praças de meditação, jardins, área de camping, um bloco bem estruturado de banheiros (com chuveiros quentes e secadores), chalés duplos ou coletivos para os inscritos nas atividades de estudos e também a residência, onde os monges e alguns voluntários vivem.

Geshe Kelsang Gyatso

Aprendizado

O fim de semana já seria valioso o suficiente se eu tivesse apenas assistido às aulas do curso, mas a vivência no centro de meditação me trouxe inúmeros outros aprendizados. Todos que ali estavam trabalhando eram voluntários e acreditavam na vida segundo os preceitos do budismo kadampa. Dedicavam suas horas de trabalho para fazer que os ensinamentos fossem acessíveis a todos os que se interessassem.

Um episódio, aliás, conseguiu resumir bem todo esse aprendizado. Ao fim de cada aula, a refeição era anunciada e os voluntários residentes solicitavam a ajuda de voluntários no intervalo entre sessões, pricipalmente para lavar a louça. Após o café da manhã, eu e minha amiga nos oferecemos. Fomos até a cozinha e, diante de pilhas de pratos e xícaras, uma voluntária aparentemente já habituada ao trabalho no centro compartilhou alguns ensinamentos sobre acumular méritos (a boa sorte criada por ações virtuosas) e como isso poderia ser anulado se a intenção não fosse verdadeira.

Aquilo foi tão comovente que a pilha de louça suja pareceu menor ao segundo olhar. A intenção, portanto, era boa. Estávamos todos ali com a ideia de acumular méritos e assim diminuir nossos sofrimentos. Por mais que a tarefa fosse banal, aquele conselho me serviu tanto quanto a aula dada pelo monge.

Não é a toa que a nova tradição kadampa considera que todos que ensinam o dharma (os ensinamentos de Buda) têm a mesma importância. Mulheres, homens, monges(as) e não monges(as).

Agora, eu sei como os budistas da tradição kadampa classificariam toda aquela minha satisfação: resultado de um fim de semana de carma positivo e acúmulo de méritos virtuosos pelos ensinamentos do dharma.

Foto 1: Divulgação Centro de Meditação Kadampa Brasil
Foto 2 a 6: Laura Luz


Veja também:
Guia - Centro de Meditação Kadampa Brasil
C
omo cultivar a paciência
Origem do budismo kadampa