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Como o vedanta explica a série Black Mirror

A internet e a tecnologia apresentam grande influência na identidade que criamos, mas o que realmente somos?

David Phan / Flickr: Selfie / CC BY 2.0

A série trata do poder da tecnologia e a influência da opinião pública na alteração da identidade pessoal

Em um futuro não muito distante, uma pessoa será o que o público dela disser que ela é.

Ao assistir os primeiros episódios da série Black Mirror da Netflix, essa é a mensagem passada pelos criadores. Desde os primeiros episódios, o que eles querem mostrar fica bem claro: o poder da tecnologia e a influência da opinião pública na alteração da identidade pessoal. Ou seja, como o indivíduo vai deixando seus valores para atender à demanda pública.

Esse assunto tem relação com o papel da evolução tecnológica e por isso é algo tão atual. Trata-se, portanto, não só do tema da série, mas do que vivemos atualmente fora da ficção.

A cultura do tornar-se

Em um mundo em que a quantidade de curtidas, visualizações e interações transformam um anônimo em uma celebridade, fica fácil perceber os valores que estão envolvidos. São princípios baseados no futuro, no ter coisas e no alcançar algo. É a constante presença do modelo industrial, que diz que deve-se estar sempre ocupado, que o trabalho e as conquistas materiais devem estar em primeiro lugar e que o tempo deve ser usado para a obter o sucesso profissional. É a cultura do tornar-se. Assim, quando você não é bem-sucedidos como esse modelo diz que deveria ser, você acha que deve ter algo errado, logo precisaria fazer tudo para conseguir sucesso.

Mas a verdade é que as conquistas exteriores são apenas experiências no mundo objetivo. E o vedanta explica: experiências são somente experiências. Você pode escolher as que tem mais afinidade e também tomar consciência daquelas que não tem atração, por isso, não as escolhe. Você não é a sua profissão, nem as suas conquistas materiais. Você não é nem mesmo a imagem que vende ao mundo, tampouco a imagem que fazem de você.  Esse ensinamento dos vedas mostra a não necessidade de se tornar alguém para estar satisfeito, pois tudo o que é impermanente não é o que você verdadeiramente é. Logo, esse preceito vai contra o atual modelo industrial do tornar-se.

Hipervalorização da identidade

Com as facilidades tecnologicas, parece fácil ser outro alguém. A sensação de que pode-se tornar alguém importante e reconhecido é alimentada por elas. O perigo mais iminente, entretanto, é a hipervalorização da identidade. Se você é o cargo que ocupa e o poder que possui, ao perder essas papéis, a mensagem que fica é que você não é ninguém. Se você sabe que as imagens, identidades e papéis se alteram o tempo todo e que, portanto, isso não o define, não temos necessidade de reter nenhum deles.

A audiência

Existe a falsa impressão de que é fácil conquistar uma grande audiência, mas o público apenas irá lhe aplaudir se você for o que ele quer. Não tem problema nenhum agir assim, desde que se tenha consciência que isso é apenas um papel. Pode ser que o que você tenha a dizer e mostrar seja muito interessante e que muitos o reconheçam como alguém importante. Mas o que fazer com esse reconhecimento? Perpetuar o modelo do tornar-se e empenhar um grande esforço para a manutenção do status quo ou lembrar que essa admiração e o que está sendo aplaudido é impermanente e varia de acordo com os gostos e aversões de cada um?

Ao escolher a segunda opção, você pode relaxar, pois compreende que você não é apenas os papéis que desempenha. O resultado das suas ações e a interpretação de cada um a seu respeito e ao que você faz não está sob seu controle. Compreender isso traz a aceitação e a paz que tanto procuramos. A aceitação que tanto buscamos no exterior está disponível o tempo todo em nós mesmos. Existem casos de sucesso e reconhecimento vindos da internet? Sim, eles existem, mas será que se sentem felizes e satisfeitos? Se perderem seguidores ou forem odiados, eles saberão separar a imagem que construíram do que são verdadeiramente?  

O vedanta ensina que somos ísvara, a ordem que está presente em tudo. Isso é o que somos verdadeiramente e nesse sentido somos permanentes. Essa verdade não se altera com as experiências, com os papéis que desempenhamos, com a impermanência de todos e de todas as coisas, nem com o tempo.

A tecnologia não é a grande vilã, pelo contrário. Com ela, hoje podemos estar em contato com pessoas que admiramos ou amamos instantaneamente. Não há problema em usar a tecnologia, mas em como fazemos uso dela e, mais ainda, como interpretamos os valores que estão por trás dela. O quanto deixamos nos contaminar pela ilusão, muitas vezes, vendida, o quanto deixamos de filtrar as informações que são apresentadas e, principalmente, o quanto reproduzimos modelos inconscientemente. A pressão pelo sucesso, pelo fazer, pelo tornar-se é imensa. Se não estivermos atentos, participamos desse modelo sem querer nem questioná-lo. 

Foto: Senado Federal / Flickr / CC BY 2.0


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