Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Últimos Acessos

Saiba mais sobre

Sabesp e a falta de água em SP

Fraco investimento em infraestrutura, má gestão e desmatamento são as principais causas da crise hídrica

Shever / Flickr: Shever & Kimmrs / CC BY 2.0

A água do volume morto tem sido utilizada desde maio de 2014 para tentar evitar um colapso no abastecimento

"Eu acho que daqui um mês e meio realmente nós não vamos ter água. Não tem de onde pegar mais", é o que afirma a fundadora do Instituto 5 Elementos, Mônica Pilz Borba. A frase pode parecer catastrófica, mas ela foi dita por uma das maiores especialistas em educação ambiental do país.

Portanto, não será nada espantoso se São Paulo, a maior cidade da América Latina, viver em algumas semanas um êxodo de grandes proporções, com pessoas em busca do recurso mais valioso para sua sobrevivência. O desabastecimento de áreas importantes da Grande São Paulo, que pode trazer prejuízos gigantescos para a economia da região, já não é considerado uma hipótese, mas uma realidade sombria e sem solução em curto prazo.

De acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), os cinco maiores sistemas de abastecimento da Grande São Paulo (Alto Tietê, Alto Cotia, Cantareira, Guarapiranga e Rio Grande) têm apresentado queda acentuada nos níveis de água desde julho de 2013. Apesar de a queda do nível dos mananciais ocorrer em um momento de seca histórica da região Sudeste, há muitos fatores que contribuíram para a situação chegar a níveis preocupantes.

Um deles é a forma com que a informação é passada à população. O estudo elaborado pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) em parceria com o Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia da Universidade de São Paulo (Procam/IEE) concluiu que a cobertura jornalística feita por três grandes jornais brasileiros (Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo) não abordou e não aborda de maneira objetiva as causas reais da crise hídrica. Das 602 menções à crise, feitas entre janeiro a outubro de 2015, 77% obtiveram informações apenas de órgãos do governo. Entidades não governamentais e universidades totalizaram 23% das menções. O cenário repete-se quando são questionadas as causas do esgotamento hídrico. No total, das 196 notícias analisadas, 72% culpavam a estiagem pela falta de água, enquanto o desmatamento, aspecto fundamental para degradação das nascentes e assoreamento, foi citado em apenas 3% das vezes.

Educação ambiental

A educação ambiental é um fator que pode ajudar a entender a gravidade da crise e formar cidadãos para um futuro sustentável. Muitos hábitos de consumo de água estão enraizados no conceito de abundância de água. É muito comum nos meios de comunicação e até mesmo no currículo escolar fundamental a veiculação de conteúdos afirmando que o Brasil possui a maior quantidade de água doce do mundo. Desde pequenos, somos condicionados a ver a água apenas como um meio para realizar tarefas, mas não como elemento-chave para a vida.

É o que acredita Mônica Pilz Borba, fundadora do Instituto 5 Elementos, entidade voltada para a educação ambiental. Para a especialista, “se há 100 litros de água e há 100 pessoas, é um litro para cada um. Não é possível trazer mais água de outras bacias, porque também existem outros indivíduos nessas áreas”, afirma.

Lucros

De acordo com dados da própria empresa, o lucro líquido registrado em 2013 foi de R$ 1,92 bilhões, enquanto os dividendos distribuídos foram de R$ 534,2 milhões. A quantia de R$ 4,3 bilhões repassada aos acionistas entre 2003 e 2013, um terço do lucro líquido no período, equivale ao dobro do que a empresa investiu por ano em saneamento. A alta taxa de desperdício de água na rede é consequência direta desse baixo investimento. De acordo com números oficiais da empresa, um quarto da água se perde em vazamentos na rede. É um valor alto se comparado aos índices de países como Japão (11%), Austrália (16%) e Reino Unido (17%).

A fundadora do Instituto 5 Elementos entende que a entrada da Sabesp no mercado financeiro foi um enorme erro. Ela cita o caso da França – país no qual se baseia a nossa legislação de recursos hídricos –, que reestatizou as empresas responsáveis pela distribuição dos recursos hídricos e tratamento de esgoto. A Sabesp, que foi fundada por engenheiros sanitaristas, é, segundo Borba, gerenciada atualmente por economistas e advogados. Para ela, tudo isso, somado à total falta de regulação, pois não há um grupo ou uma instituição que possa contrapor ou analisar os dados oferecidos pela Sabesp, deixa a população às cegas em relação à administração dos recursos hídricos e das bacias hidrográficas brasileiras.

Soluções

Apesar de possuir uma legislação moderna para gerenciar os recursos hídricos (Lei 9.4330/10), o Brasil enfrenta grandes dificuldades para implementá-la de forma ampla, como é o caso dos Comitês de Bacia Hidrográfica. Trata-se de uma ferramenta importante para regular a oferta e uso dos recursos hídricos em nível regional. Contudo, a falta de uma política de integração e resolução de conflito de interesses dos participantes dos comitês dificulta o entendimento das demandas.

Novamente a visão imediatista se impõe quando são discutidos meios para contornar a crise. No estudo do IDS, 29% das notícias não trouxeram nenhuma solução para contorná-la. Daquelas que discutem algumas saídas, 46% referem-se às medidas urgentes, como utilização de volume morto, perfurações de poços ou racionamento. As medidas de planejamento, como investimento em infraestrutura de saneamento, replantio de vegetação nativa e recuperação de nascentes, compõem apenas 28% das notícias.

A crise hídrica que afeta os estados da região Sudeste é resultado de gestões falhas nas empresas de abastecimento e órgãos reguladores, da falta de investimentos em infraestrutura, do desmatamento, entre outros fatores. Os problemas ocasionados em uma bacia hidrográfica causam impactos sociais, ambientais e econômicos em outras áreas como ocorre com o reservatório Paraibuna, que abastece o Estado do Rio de Janeiro e fica em São Paulo. O mesmo acontece com o Sistema Cantareira, cuja bacia formadora de água fica em Minas Gerais.

No caso de São Paulo, a abertura de capital da Sabesp em 2002, medida que a tornou uma empresa de capital misto com o governo do estado de São Paulo seu principal acionista, foi decisiva para a piora do quadro atual. Essa contradição se reflete na diminuição dos investimentos para a ampliação dos sistemas produtores de águas, na capacitação de profissionais e na manutenção da rede de distribuição.