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De quem é a culpa da crise da água?

Sabesp sofre duras críticas durante evento promovido pelo Idec para debater planos de emergência e desmatamento

Nathália Kamura

O chão rachado da represa de Atibainha, em Nazaré Paulista, evidencia a falta de investimento em infraestrutura

Os níveis dos reservatórios que atendem a região metropolitana de São Paulo ainda são muito preocupantes. Em razão disso, continuamos no meio de uma grave crise hídrica. Para piorar o quadro, há também inúmeros problemas relacionados à Sabesp, empresa responsável pelo abastecimento de água. O descaso da companhia já virou inclusive uma questão de desrespeito ao consumidor, segundo Carlos Thadeu, gerente técnico do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

“Há uma tática diversionista, ou seja, para um eu entrego só os nomes, para outro, só os dados da tarifa. Além de ser ilegal, é uma tática de má-fé”, afirma Thadeu. Em outubro de 2014, o instituto acionou o Ministério Público Estadual e o Procon-SP para pressionar a Sabesp a fornecer documentação detalhada sobre as áreas que seriam afetadas pelo racionamento. A resposta da concessionária de água foi um mapa incompleto e de difícil interpretação pelo cidadão comum. Apenas em janeiro de 2015 houve uma ação efetiva, com a obrigação da empresa de informar, com solicitação por telefone do cidadão, os locais e horários onde vão ocorrer os cortes de água. Até março de 2015, o não houve declaração oficial de racionamento por parte do governo estadual.

Uma reclamação constante por parte da população é a presença de ar na tubulação de abastecimento. Mesmo sem água, o hidrômetro gira normalmente e registra um consumo que não houve. Apesar da alegação por parte da Sabesp de que são tomadas ações para evitar o problema, não é o que acontece na realidade. De acordo com dados colhidos pela arquiteta e urbanista Renata Moreira, apenas “60 por cento da rede de distribuição do município de São Paulo possui válvulas redutoras de pressão. O restante é feito manualmente, o que aumenta o risco de entrada de ar na tubulação”.

Plano de emergência

Enquanto o destaque na mídia tem sido o Sistema Cantareira, maior e mais importante reserva de água do Estado de São Paulo, os outros seis sistemas agonizam com problemas de retirada de água, poluição e desmatamento. Para discutir e reafirmar o papel das entidades que lutam por maior transparência na gestão dos recursos hídricos, o Idec organizou no dia 13 de março, no Sesc Consolação, o debate Crise da água em São Paulo: contexto e responsabilidades, que teve a presença de ambientalistas, membros do governo estadual e especialistas na questão. Dois pontos nortearam o debate: a criação de um plano de emergência e a estruturação de propostas para resolver uma das causa mais importantes da atual crise, mas nem sempre lembrada pela mídia e pelo governo: o desmatamento e a degradação cada vez maior das áreas de proteção ambiental (APPs).

“Todas as ações de contingência, como bônus na conta e racionamento, feitas desde janeiro até março ajudaram a reduzir o consumo em 20%; contudo, essa recuperação deve ser vista com muita cautela, pois estamos em um nível de risco muito elevado. Como é que vamos passar o ano de 2015 com a água do volume morto e o consumo ainda em níveis elevados?”, afirma Marussia Whately, consultora para assuntos hídricos do Instituto Socioambiental (ISA). Em razão disso, a criação de um plano de emergência para contornar os problemas atuais e em médio e longo prazos da crise hídrica é o ponto principal da Aliança pela Água, coalização criada para articular as propostas de entidades sociais em uma plataforma acessível à população.

“O ano de 2014 foi perdido. A política de distribuição de dividendos aos acionistas da Sabesp prejudica a margem de investimento da empresa em saneamento e distribuição de água. A preocupação mais urgente é que façamos as ações adequadas nesse ano para não prejudicarmos o ano de 2016”, diz o sociólogo Ricardo Guterman, do Coletivo pela Água. Segundo ele, a situação não será nada agradável em 2015.

Guterman não é o único a criticar duramente a política de distribuição de dividendos da empresa. Desde 1994, a Sabesp é uma empresa de capital misto. Desde então, cerca de 25% de lucro líquido da companhia vão para os acionistas. Em 2013, o lucro líquido anunciado foi de R$ 1,92 bilhão. Desse total, R$ 534,2 milhões foram parar nas mãos dos acionistas. Isso diminui consideravelmente a capacidade de investimento em distribuição e saneamento.

Assoreamento da represa
Com o baixo nível da represa, o assoreamento das margens causa erosão e dificulta a recuperação da mata ciliar

Risco epidemiológico

"O controle de qualidade da água deve ser feito casa a casa, por mais difícil que seja. Se não houver o cruzamento de dados de saúde pública com os dados referentes à crise da água, não será possível criar políticas públicas para combater problemas relacionados ao consumo de água imprópria”, afirma Darcy Bregas, ex-funcionário da Sabesp. Isso, para o especialista, pode produzir riscos epidemiológicos para toda a população.

Bregas acredita que falta uma maior articulação e acompanhamento das entidades do Aliança pela Água em torno de questões técnicas: “fala-se apenas do Sistema Cantareira, mas é necessário vigiar a operação dos mananciais como um todo para não haver retirada de água maior do que a capacidade de reposição. Além disso, é imperativo manter a capacidade operacional dos sistemas, pois se voltar a chover novamente, haverá danos graves aos equipamentos”.

A união das entidades não ocorre apenas para pressionar o governo, mas também para vencer a incessante veiculação por parte da grande mídia de dados errados ou manipulados sobre a situação real da crise. É comum vermos representações e gráficos com valores fornecidos pela própria Sabesp dos níveis positivos dos reservatórios, o que não condiz com a verdade. Por meio de uma análise mais idônea e aprofundada, as entidades de mídia independente lutam para que a informação atinja o máximo possível de pessoas com informações que analisem todos os lados da situação.

Represa de Atibainha
A vegetação no fundo da represa pode diminuir os níveis de oxigênio água quando o nível estiver mais elevado

“Estamos em um grande processo de transição. As manifestações de junho de 2013 ajudaram a impulsionar a descrença com os grandes jornais e emissoras. A mídia independente não se propõe a disputar pelo volume de informações, mas pela narrativa. A ideia é manter o foco na qualidade, ouvir as outras fontes e dar abrangência a elas. Isso é resgatar o verdadeiro espírito do jornalismo: ir aonde as coisas acontecem e dar a versão real da situação”, é o que acredita a coordenadora de comunicação da Aliança pela Água, Rebeca Lerer.

Desmatamento

“Não é plantando floresta hoje que vai ter água amanhã. Temos de tomar cuidado com isso para não dizermos bobagens”, afirma Maria Cecília Wey, CEO WWF Brasil. Segundo ela, o imediatismo de hoje cria uma falsa ideia de solução em curto prazo no que diz respeito às políticas florestais.

Esse ponto também foi abordado durante o encontro. Para os participantes, um dos maiores problemas é que a importante questão do desmatamento é pouco discutida na grande mídia. De acordo com estudo feito pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade a respeito da cobertura dos três maiores jornais da região sudeste (Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo) de 31 de janeiro e 15 de outubro de 2014, apenas 3% do conteúdo veiculado mencionou o desmatamento como a causa da falta de água. O controle de desmatamento, fundamental para garantir a produção de água, aparece com pífios 8%. De acordo com Wey, “é necessária uma articulação das entidades e governos para evitar falhas nos projetos de reflorestamento. Independentemente do que seja feito já, é importante ter a garantia de um marco jurídico para garantir que as ações aconteçam.”

Para o secretário adjunto de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Marcelo Sodré: "A discussão e as ações tem de ser em médio e longo prazo. Temos muitos recursos, como as políticas de licenciamento, mas não conseguimos unir os interessados. Muitas empresas ainda acreditam que é caro e inviável investir em manutenção da vegetação ou replantio".